Quando o presidente dos Estados Unidos Donald Trump ameaçou impor um tarifaço nas exportações do Brasil, um efeito quase imediato foi um aumento da popularidade do presidente Lula em pesquisas.
Lula se colocou como crítico da medida e das ações de Trump. Meses depois o país conseguiu fazer com que boa parte das tarifas fosse suspensa, com direito a elogios do americano ao presidente brasileiro.
Mas isso não impediu que o episódio polarizasse as bases de eleitores de Lula e do ex-presidente Bolsonaro.
Um lado culpava o tarifaço pelas ações do filho do ex-presidente, Eduardo, que vinha articulando nos EUA para que sancionassem ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
De outro, críticos do presidente, especialmente da ala bolsonarista, diziam que Lula estava tentando fazer política partidária e rivalizar com Trump, ao invés de negociar com o líder americano.
Uma das falas que se destacaram nas críticas a Lula nas redes sociais naquele momento veio de uma voz e um rosto que não existem para além das redes sociais.
Era Dona Maria, um avatar criado com inteligência artificial para representar uma mulher negra, idosa, que fala palavrões e se diz revoltada com a situação do país.
Um vídeo sobre o tema publicado em sua conta no Instagram em 10 de julho de 2025 atingiu 8,8 milhões de visualizações e mais de 23 mil comentários.
“Eu já estou revoltada com essa p*, Brasil. E o molusco (referência ao presidente Lula) está calado. Agora que o povo está levando no r* com taxa gringa, ele está calado igual siri na lata. Cadê o povo na rua? Cadê panela batendo, cadê o grito, cadê a revolta? Ou todo mundo virou planta? Porque eu tô aqui gritando e só escuto o vento e a taxa vindo.”
Na imagem, Dona Maria, criada com ferramentas do Gemini, a inteligência artificial do Google, fala em um microfone, como se estivesse em um discurso, com plateia ao fundo.
Os comentários se dividem: alguns diziam que queriam vê-la discutindo com Lula, outros reclamaram do excesso de palavrões. Um afirmou que ela “lavou a alma dos brasileiros.”
Ninguém questionou o fato de Dona Maria não ser uma pessoa de verdade.
O viral não foi exceção: a BBC News Brasil analisou dados da página e uma amostra de mais de 50 mil comentários e identificou um engajamento próximo ao de políticos tradicionais da direita brasileira, com uma média de mais de 2 mil comentários por publicação.
Ao menos 12 vídeos da página tiveram mais de 1 milhão de visualizações em menos de um ano.
Além do levantamento próprio, a reportagem também pediu à startup Zeeng, de análise de dados, uma comparação com outros perfis sobre política na mesma rede social.
A média de interações por publicação (comentários e curtidas) no Instagram desta personagem de IA no último ano foi semelhante à de políticos de diferentes espectros, como da senadora Damares Alves (Republicanos) e do deputado Lindbergh Farias (PT).
Foi também maior, no período, em média de interações por publicação, do que páginas como a do ex-governador de Goiás e pré-candidato a presidente Ronaldo Caiado (PSD), segundo este levantamento. Foram analisadas interações em publicações de julho de 2025 até a primeira semana de abril deste ano.
Isso não significa que esse engajamento seja recorrente ou permanente — as publicações mais recentes da página obtiveram engajamento inferior à média, por exemplo.
Uma página que tenha um maior número de publicações, mas com menos engajamento, apareceria em uma posição mais baixa neste ranking. Caso do perfil do presidente Lula, por exemplo, que postou mais e com conteúdos mais diversificados, como fotos, galerias e vídeos.
A análise dos comentários nos posts da Dona Maria também revela interações com políticos da direita e mensagens de apoio e críticas de usuários comuns.
Embora o perfil de Dona Maria não faça apoio explícito a um candidato, as críticas são, em sua maioria, direcionadas ao presidente Lula, ao atual governo e a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
O criador do perfil, que diz trabalhar como motorista de aplicativo e usar a página para complementar a renda, afirmou em entrevista à BBC News Brasil que não tem candidato.
Mas diz também que não teria dúvidas entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), que aparecem como os nomes mais competitivos à presidência nas pesquisas de opinião até agora: se pudesse, conta, faria campanha para o segundo de graça.
Para especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, esse tipo de conteúdo gerado por IA poderá ser usado para mobilizar eleitores, abastecer candidatos com menos recursos e mobilizar campanhas não oficiais, com críticas a candidatos que poderiam violar regras do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Há também um risco, segundo os especialistas, de que esse tipo de conteúdo possa confundir eleitores e até o Judiciário.