Abandonado e só, jovem morto por leoa queria voltar à prisão, diz diretor

No último dia 24, a polícia paraibana levou até a Central de Flagrantes de João Pessoa um jovem que havia quebrado a tela de um caixa eletrônico. Ele era Gerson de Melo Machado, 19, já conhecido pela polícia por suas passagens e que, no último domingo, morreu após entrar na jaula da leoa Leona, no zoológico da capital paraibana.

“Mas ele não quebrou aquele caixa para roubar, como muitos falaram. Ele só queria voltar para a prisão”, conta Edmilson Alves, o Selva, diretor do presídio do Roger, onde Vaqueirinho — como o jovem era conhecido, mas não gostava de ser chamado— ficou preso por três oportunidades.

Edmilson diz que se aproximou do rapaz, que tinha esquizofrenia. Ele conta que, no dia 24, Gerson se revoltou porque o delegado informou que não poderia prendê-lo por dano ao equipamento. “Ele afirmou que queria ser preso, disse que não aguentava mais ficar na rua, que não tinha ninguém.”

Frustrado por não ser levado ao presídio do Roger, Gerson jogou um paralelepípedo em uma viatura da Polícia Militar logo após sair da delegacia. “Ao voltar, ele disse ao delegado: ‘Agora o senhor vai ter de me prender’. Aí ele foi detido”, relata Edmilson.

Mesmo assim, Gerson não foi levado ao presídio. Passou a noite na Central de Polícia e, no dia seguinte, foi liberado na audiência de custódia, que determinou apenas que ele se tratasse em um Caps (Centro de Atenção Psicossocial).

“Vaqueirinho dizia que a gente era a família dele, porque a gente o ouvia e cuidava dele. Mas o presídio não era o lugar adequado para ele”, diz o diretor.

Sem apoio familiar

Quando foi solto pela última vez —Edmilson não lembra a data—, o diretor levou Gerson pessoalmente para a casa da avó, no bairro de Mangabeira.

Quando cheguei, a avó disse: ‘Leve ele de volta para o presídio ou para a casa do pai, aqui não dá pra ficar’. Perguntei quem era o pai dele, e ele respondeu: ‘Meu pai não quer saber de mim, minha madrasta nem quer me ver’. Edmilson Alves.

Ao ver a situação e perceber que não havia ninguém disposto a acolhê-lo, Edmilson entendeu melhor o drama do jovem. A mãe de Gerson havia sido destituída na infância por não ter condições de cuidar dos cinco filhos.

Em relação à casa da avó, posso dizer que o presídio é um hotel cinco estrelas. Não falo pela estrutura, mas porque a avó é doente, não tinha sequer o que comer. No presídio, ele tinha três refeições, dentista, médico, era cuidado por pessoas. Ele ficava no pavilhão de violência doméstica, e lá mandei os outros presos ficarem de olho nele. Edmilson Alves.

Quando foi preso pela última vez, Edmilson conta que Gerson disse não estar medicado. “Ele me disse que fazia quatro dias que não tomava o remédio. Sabia que ia dar problema, porque ele precisava estar medicado sempre.”

Ao saber da nova prisão, Edmilson gravou um vídeo sobre Gerson, que viralizou após a morte do rapaz. Nele, fez um alerta —quase uma premonição— sobre o risco que Gerson corria nas ruas.

Na cadeia, aprenderam a lidar com ele

Edmilson afirma que, no último período em que esteve preso, Gerson estava mais tranquilo. “O psiquiatra o via todo mês, ele era acompanhado e medicado, e a gente aprendeu a lidar com ele. Na casa da avó, ele não tinha isso.”

“Ele era uma pessoa que, no surto, ficava violento: batia a cabeça na parede, se automutilava. Quebrou umas três celas, amassou grades, deu muito trabalho até eu entender como lidar com ele. Coloquei ele pra caminhar, pra capinar o mato, e, ficando mais solto, ele ficava mais íntegro. Por isso o pus em um pavilhão coletivo.”

Segundo o diretor, Gerson não tinha histórico de uso de drogas ilícitas, apenas tomava —de forma irregular— medicamentos para seus transtornos mentais. “A gente via que, quando ele voltava, não estava debilitado como os que ficam nas cracolândias”, relata.

Edmilson descarta a hipótese de suicídio. “Quando cheguei hoje no presídio, os colegas dele me falaram: ‘Perdemos nosso menino’. E era isso, ele era como uma criança. Ele quis descer ali pra domar, pra brincar com a leoa. Se quisesse se matar, tinha feito no presídio.”

O diretor destaca que Gerson nunca foi educado para viver em liberdade. “Na infância, foi levado pra abrigos. Na adolescência, passou várias vezes no CEA [Centro Educacional do Adolescente], e, depois da maioridade, veio pro presídio. Ele só conhecia a vida do cárcere”, lembra. Para Edmilson, a morte do rapaz foi “uma tragédia anunciada”.

A gente aqui [no presídio] age quando todo mundo falhou antes. Vaqueirinho não gostava do Caps, ele tinha que ser levado pra uma fazenda terapêutica ou pra um lugar onde pudesse trabalhar e ficar solto. Ele não admitia ficar preso. A tragédia poderia ser evitada se todos tivessem ajudado a cuidar desse cara. Edmilson Alves.

https://noticias.uol.com.br/colunas/carlos-madeiro/2025/12/02/abandonado-e-so-jovem-morto-por-leoa-queria-voltar-a-prisao-diz-diretor.htm

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O mais chocante é que talvez a morte fosse a melhor opção para ele. A dor dele de está vivo era muito grande, a ponto de preferir está preso do que solto.

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Viva o capitalismo

Mto triste essa história

Ele só tinha 19 anos mds

Tadinho :choro:

Foi uma grande fatalidade l, é muito triste e revoltante ver que ele preferia voltar para a cadeia por se sentir melhor lá e ele não ter praticamente nenhum apoio para se erguer financeiramente e socialmente (o único que teve de certa forma foi o da agente do conselho tutelar).

Espero que o espírito dele esteja descansando bem e que seja acolhido em um bom lugar no pós-vida.