Amada pelo público, Thalita Carauta deveria ser a protagonista de Segunda Chamada

Assistir a Segunda Chamada é um exercício de expectativas. Débora Bloch é a protagonista Lúcia, professora que trabalha pelo bem dos alunos. Parte de sua narrativa é usada para evidenciar o quanto sua miséria pessoal é tão tenebrosa quanto a deles. Mas na sala ao lado está Eliete, vivida por Thalita Carauta, personagem leve, divertida e que, como protagonista, causaria um contraste interessante com a densidade do enredo.

A Globo tem sofrido de um grave fetiche pela dor. É evidente que o drama é o fio condutor de protagonistas da televisão desde que o mundo é mundo. A emissora prioriza o estilo e essa citada dor em quase todos os seus títulos.

Produtos como Carcereiros, Sob Pressão, Onde Nascem os Fortes (2018), Amores Roubados (2014), O Canto da Sereia (2013), Ilha de Ferro (2018-2019) e até os que estão por vir, caso de Onde Está Meu Coração, têm o excesso dramático como fonte primordial, afundando o espectador em uma lista de tragédias e horrores. Em alguns deles, não há sequer aquilo que especialistas chamam de alívio cômico.

Segunda Chamada não foge à regra. Ela cumpre a cota de recursos dramáticos chocantes quase em plenitude. Com qualidade, é claro, mas recheada de clichês: tramas que se passam em realidades marcadas pela violência e pobreza sempre têm um parto improvisado, uma prostituta revelada, rompantes de fantasia e lúdico, aborto e sem-teto, entre outros.

As opções dos roteiristas são muitas, e eles aproveitam todas. A vantagem está na abordagem, que em alguns casos é realmente competente. No entanto, o excesso de drama resvala quase que por completo na personagem de Debora Bloch, que pesa mais do que resolve os conflitos da trama.

No sexto episódio da temporada, Lúcia lida com um assalto promovido por um de seus alunos. É um enredo muito forte, cheio de possibilidades trágicas, e nós já sabemos que, por se tratar da professora, o roteiro não vai nos poupar. E não poupa. A emoção é cavada com uma reviravolta cruel que se correlaciona diretamente com os traumas da personagem --sim, porque ela ainda precisa ter alguns.

Na outra ponta do episódio, Eliete lida com um problema muito mais simples: um aluno que é morador de rua e não consegue tomar banho todos os dias. Há um universo separando os dois enredos, mas o resultado emocional presente na cena em que Eliete abraça o desabrigado, com leveza e quase sorrindo, é muito maior.

Débora não está mal em seu papel. Ela é uma atriz forte, entende a personagem e dá o melhor de si para vivê-la. A questão é maior do que essa, está na construção de um conceito que acredita ser necessário escolher uma atriz com status de estrela --e tudo que isso representa-- para ocupar um lugar que fala com mais fluidez através de uma atriz como Thalita, negra, nascida e criada no subúrbio carioca.

É claro que atores não estão condicionados à própria origem na hora de viver um papel, mas a decisão de trazer Débora parece menos criativa e mais empresarial. Ela é, afinal, o rosto conhecido.

O resultado da presença de Thalita na série não poderia ser outro: Eliete é adorada. Sua personalidade leve, otimista e divertida, faz um contraste essencial com a miséria constante em que a história está inserida. O sofrimento está por toda parte.Sua luz, suas brincadeiras e seu despojamento equilibram a balança, suavizam, humanizam a série e impedem que ela seja só uma vitrine para atores ansiosos por reconhecimento e para roteiristas afoitos por catarse. As séries da Globo ainda não aprenderam que emoção é uma consequência de uma história bem contada, seja ela dramática ou não.

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Serie perfeita com elenco perfeito.

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