ANÁLISE - De selvagem a prostituta: Universo feminino de Pantanal é limitado e machista

Pantanal traz um compilado do universo feminino extremamente negativo. Dondocas fúteis e sem empatia atrapalham as vidas dos homens bravos e fortes da novela das nove da Globo. A trama conta também com donas de casa que passam raiva, mas se mantêm submissas, seja pelo passado na prostituição ou porque preferem “fingir demência” a cada patada que levam.

Juma (Alanis Guillen), a jovem selvagem e atraente que habita o imaginário do público como um ser arrebatador, vive entre o papel de ser uma espécie de atração de circo e o de mostrar o quanto qualquer um pode ser um animal quando não tem acesso à educação e à informação.

O folhetim exibido há 32 anos, fenômeno por roubar a cena fora da Globo, apresenta uma atualização em relação ao conteúdo visto no passado. No entanto, esse upgrade não reflete a realidade da grande maioria --e o Ibope comprova o crescimento da audiência da emissora em comparação ao folhetim anterior, Um Lugar ao Sol.

O fio condutor de Pantanal são os conflitos e dramas familiares --temas atemporais–, mas o bom retorno que o folhetim rende à Globo não pode ser atrelado somente à superprodução que embala a história nem à memória afetiva. A trama é superconservadora em muitos aspectos, e esse é um dos fatores que a fizeram cair no gosto daqueles que já não assistiam mais à novela das nove.

Entre os pontos com os quais é muito difícil criar identificação, estão os perfis femininos. Afinal, mulheres-onças não andam por aí no metrô, no escritório ou no bar. Donas de casa incapazes de desconfiar de um comportamento agressivo e insensível de alguém como Tenório (Murilo Benício), ou companheiras tão indiferentes à falta de importância com que são tratadas, como Filó (Dira Paes), existem, sim, mas não são nem de longe a realidade feminina na sociedade.

JOÃO MIGUEL JUNIOR/TV GLOBO

Julia Dalavia

Julia Dalavia é a engenheira Guta na novela

Em meio às diversas discussões sobre representatividade na TV, inclusive na ficção, como é o caso da novela escrita por Bruno Luperi, sobra para Guta (Julia Dalavia) ser a única mulher “normal”.

A engenheira virou “professora” da história e didaticamente tem de explicar coisas como: um homem não é gay só por não sair no braço ao ser desafiado, a mulher não é empregada para viver para lavar e cozinhar para seu homem. Guta é o contraponto das falas machistas do pai e da servidão e cegueira da mãe, mas também dá chacoalhão em outros personagens. Está sempre apontando que certos princípios e preconceitos ficaram ultrapassados e não cabem mais nos dias atuais.

Infelizmente, mesmo crescendo a atuação do núcleo do Rio de Janeiro --cujas mulheres vivem à beira de um ataque de nervos e ignorando a sororidade–, o remake peca por reduzir a uma única mulher o papel de mostrar que de 1990 para cá as damas passaram a serem vistas como realmente são: fortes, batalhadoras e, principalmente, donas de seus próprios narizes.


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