Andréia Horta revela desejo de ser mãe: 'Sempre tive vontade'

A primeira vez em que Lara aparece em “Um lugar ao sol”, ela está dançando. A personagem de Andréia Horta é vista pelos olhos de Christian, um dos gêmeos vividos por Cauã Reymond na novela das nove. O movimento é uma declaração de boas-vindas a uma mulher com belos traços, curvas, cores e ímpeto (o primeiro beijo quem dá é ela). Mas não só. A mineira desafia o cinzento ao redor com doses generosas de honestidade e integridade. Olhe para o lado. Não é pouco.

Do outro lado do espelho, a atriz de 38 anos conta que está “revolucionada”. Pudera. Durante a pandemia, Andréia terminou o casamento, juntou-se às comadres para cerzir espetáculo virtual calcado na força da palavra, escancarou a urgência do cinema brasileiro em seu programa na TV e viveu, no longa de Sérgio Rezende, a protagonista às voltas com traduções possíveis, nem sempre prováveis, para a maternidade em “O jardim encantado de Mariana”.

Andréia Horta Foto: Demian Jacob

Andréia Horta Foto: Demian Jacob

Na ponte aérea entre o Rio e São Paulo, de mudança (s), ela agora se prepara para encarnar a mãe de Chitãozinho e Xororó em uma das principais apostas da Globoplay para 2022. Esta Andréia em movimento coça as mãos sabendo que seguirá o mergulho no Brasil profundo, traduzido e dado de bandeja a quem se dispõe a segui-la. O bônus é tão óbvio quanto acolhedor: aquele mesmo sorriso que paralisou Christian. E uma multidão de espectadores.

Onde você encontrou leveza nestes tempos pandêmicos?

Com as minhas amigas. Especialmente com o “Cara palavra” ( espetáculo on-line ), que fiz com Débora ( Falabella ), Mari ( Ximenes ) e Bianca ( Comparato ). Nos reunimos toda semana para criar vídeos ( apresentados no Instagram ) e lapidar temas que queríamos tratar na peça. Quatro mulheres que se adoram, presas em suas casas, se encontrando para seguir em frente. Atuar pra mim é meio como sentir o silêncio, a vida te atravessando. Foi nosso antídoto.

A pandemia mudou sua noção de finitude?

Curioso você me perguntar isso. A pandemia intensificou essa noção, claro, ficou mais concreta, a gente encapsulado, tentando ficar vivo, mas, não sei o motivo, sempre tive a clareza de que a vida pode acabar a qualquer momento. Talvez seja por eu atuar desde criança.

Andréia Horta Foto: Demian Jacob

Andréia Horta Foto: Demian Jacob

Como assim?

Penso na tensão entre o ação e o corta, de que naquele instante em que se está em cena a vida precisa pulsar de modo talvez ainda mais intenso. Quando atuo, não posso me distrair, como faço na vida. Mas não foi só a noção de tempo que mudou, a do que é verdadeiro também. Repensei todas as relações.

Na novela, Lara se pauta pela verdade…

Lara é honesta, ética, e faz dupla com a avó, Noca ( Marieta Severo ), que passou esses valores pra ela, mas é menos rígida. Li os primeiros capítulos e me toquei do significado de se fazer hoje uma personagem com esses valores, mesmo que o público pudesse pensar “pera lá, não existe essa pessoa”. Existe sim! E que bom que ela nos oferece luz pra gente fazer as coisas direito. Noca questiona: “E por que precisa falar a verdade o tempo todo, menina?”. Lara não vê outra opção. Ela é bonita de se fazer. Sofre por amor, mas é leve, colorida, verdadeira.

E, como você, veio de Minas…

O sotaque dela é meu. A Lícia ( Manzo, autora ) também é de Juiz de Fora, e a Pouso Feliz da novela fica ali “do ladim” (risos). Somos reservados. Mesmo quando as experiências mais íntimas começavam a ser compartilhadas com as amigas adolescentes, eu era a que ficava quieta, ouvindo.

Andréia Horta Foto: Demian Jacob

Andréia Horta Foto: Demian Jacob

Mas a mineira reservada tem milhares de seguidores nas redes sociais…

Não teve nada que postei e de que me arrependi. As redes me trazem o retorno do público, são um camarim digital. Sigo coisas educativas, mas também outras bagaceiras, que melhoram meu dia (risos).

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Você postou sobre o fim de seu casamento de dois anos com o ator Marco Gonçalves. Por que dividir algo tão íntimo?

Queria que a notícia saísse de mim. O casamento era meu e queria comunicar seu fim. Achei que era justo. Só isso.

Andréia Horta Foto: Demian Jacob

Andréia Horta Foto: Demian Jacob

E você se surpreendeu com a reação das pessoas?

Parecia que era meu aniversário (risos) . Recebi muito carinho. Separar é dar novo significado à nossa própria linguagem. Dali, ponto final, e agora é olhar para o adiante.

Mirar o futuro é o que sua protagonista faz no filme “O jardim secreto de Mariana”. Ela, que também se separa, se guia pelo desejo de ser Mãe, mesmo só. Essas questões ecoaram em você?

Sempre tive vontade de ser mãe. Mas entre o desejo e o “vou ter agora” há uma distância. Estar tão próxima de uma personagem que deseja tanto“maternar” escancarou pra mim o fato de que nós, mulheres, temos este relógio biológico escroto, injusto, curto. O tempo, de novo, né? Pode ser um dia, mas não estou pensando agora “ah, então vou sozinha”. Estou num momento intenso, terminei de gravar a novela, emendei com o programa no Canal Brasil (“O país do cinema”), a casa no Rio está em obras, me mudei para São Paulo por um ano. Estou bem revolucionada!

Andréia Horta Foto: Demian Jacob

Andréia Horta Foto: Demian Jacob

Que frase boa…

Achei boa também! (risos) . Sou brasileira, morando aqui em 2021, né? Como não estar revolucionada? E agora ainda começo a criar uma nova personagem, difícil, forte, que pede minha atenção.

Quem é ela?

Voltarei a trabalhar com o Hugo ( Prata, diretor de “Elis”, que Andréia encarnou no cinema ) na série “As aventuras de José e Durval”, em que faço a dona Araci, mãe de Chitãozinho e Xororó ( vividos pelos irmãos Rodrigo e Felipe Simas ). Uma mulher que teve oito filhos em condições muito adversas, que amava cantar, mas teve de parar com a chegada das crianças. Estou muito acesa da possibilidade de falar de uma mulher que viveu tudo isso, muitas vezes sem ter o que comer. É importante falar desse Brasil profundo. Tenho escutado música sertaneja de raiz, algumas melodias batem e começo a chorar. Era criança, tinha seis, sete anos, quando teve o boom das duplas sertanejas. Minha mãe, que canta lindamente, distraidamente, passando vassoura na casa ou cortando legume para o almoço, tinha o sertanejo raiz no repertório.

Você estava fazendo laboratório sem saber…

Viva Dona Cristina! (risos). Tenho loucura pela minha mãe.

Andréia Horta Foto: Demian Jacob

Andréia Horta Foto: Demian Jacob

Falando de Brasil profundo, difícil não pensar que o título de seu programa, “o país do cinema”, infelizmente, ficou quase irônico…

Só não é uma ironia porque é trágico pra caralho, ? A Ancine acabou e os recursos, que existem, estão paralisados por questões ideológicas. Agora, se a gente subir a grua e olhar o macro, deveríamos estar comprometidos a criar condições melhores para tudo. A extrema direita está no poder e penso também nos desastres sanitário, ambiental, em como a pobreza aumentou de forma agravante, no fim do Bolsa Família. Na tragédia da incompetência, da ignorância e do atraso que nos rodeia.

Você sente que seu ofício ficou, por tudo isso, mais necessário?

Sem dúvida. Na novela, no filme, no teatro, em um poema, proclamamos o que não pode continuar como está. Criamos memória, inventamos um mundo como ele poderia ser. Está duro, mas também bonito demais ser artista aqui e agora. É muito difícil perceber que tratar do humano, do que move decisões, políticas e íntimas, possa ser percebido como algo menor. Mas tenha certeza de que isso diz mais sobre quem olha para a arte desta maneira do que sobre quem a faz, ou a absorve.

Andréia Horta Foto: Demian Jacob

Andréia Horta Foto: Demian Jacob

Por outro lado, você disse ter desde cedo certa intimidade com o fim. Essa sabedoria de entender que tudo acaba se refinou com o tempo?

Acho que sim. E, apesar de tudo, de tudo mesmo, que a gente conversou, este é um grande momento para ser mulher. Sim, ser mulher é diariamente lutar contra forças que tentam te diminuir, te desmerecer, te confundir, te enfraquecer. Mas temos estudado, aprendido. Estamos mais fortes.

adoro ela, parece ser gnt boa

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