Antes da Globo, do ‘Xou’ e sucesso: Bastidores e polêmicas dos 40 anos da estreia de Xuxa como cantora

Em novembro celebra-se o 40º aniversário de um álbum que, embora não tenha sido um grande sucesso comercial, abriu as portas para o estrondo pop que transformaria Xuxa em um dos nomes mais onipresentes da cultura brasileira. No final de novembro de 1985, chegava às lojas “Xuxa e Seus Amigos”, lançado pela Philips/Polygram, em um momento em que a apresentadora ainda comandava o “Clube da Criança”, na TV Manchete. O disco, raramente mencionado pela própria apresentadora, permanece hoje envolto em certa névoa documental: poucos dados oficiais sobreviveram, e sua vendagem exata continua imprecisa. A divulgação também foi tímida — que nem mesmo a Revista Manchete, sempre atenta à programação da emissora, investiu muito espaço na promoção do álbum.

Quarenta anos depois, “Xuxa e Seus Amigos” ressurge como uma fotografia antiga que, ao ser reencontrada, revela detalhes antes invisíveis. O disco que nasceu discreto, quase improvisado, hoje parece um ponto de partida desenhado pelo acaso. Entre vozes famosas, gravações rápidas e um futuro ainda nebuloso, Xuxa descobria ali sua própria luz. E se a televisão anunciou sua despedida da Manchete e ida para a Globo, o álbum anunciava algo maior: uma travessia. Porque, no fim, aquele LP foi menos um produto e mais uma porta — a primeira que se abriu para o fenômeno que viria.

Na televisão, porém, a Manchete decidiu transformar o disco em um especial exibido em 22 de dezembro de 1985. A faixa “Sete Quedas” foi escolhida como música de trabalho e, no ano seguinte, entraria na coletânea TVLândia, lançada pela Som Livre, já sob o radar da Globo. A recepção da crítica especializada foi mista, mas as vendas — segundo o produtor do álbum, Roberto Menescal — teriam alcançado cerca de 500 mil cópias, um número expressivo para um projeto que nasceu quase sem alarde.

Em 2013, Roberto Menescal, relembrou à Veja o contexto quase improvisado que deu origem ao primeiro álbum inteiramente cantado por Xuxa. À época, a então manequim e apresentadora infantil — muitas vezes atacada pela crítica — não era exatamente vista pela indústria fonográfica como uma aposta segura.

“Conheci a Xuxa ainda como apresentadora da TV Manchete. Na época, ela se preparava para deixar a emissora e ir para a Globo. A Polygram havia suspendido as contratações, em decorrência de uma crise. Resolvi chamá-la assim mesmo, mas a direção se recusou a custear o LP. Pedi gravações emprestadas a artistas da casa como Caetano (‘Leãozinho’) e Erasmo Carlos (‘Pega na Mentira’) e coloquei a Xuxa cantando com eles. Fiz 12 faixas sem gastar praticamente nada, e ela adorou o resultado. O disco Xuxa e Seus Amigos (1985) vendeu 500 mil cópias, um número excelente. Eu já estava para sair da gravadora quando houve a convenção de vendas anual de 1986. Levei a Xuxa e foi um frisson. Quando todos esperavam que eu anunciasse um segundo LP, avisei que estava rescindindo o contrato dela porque a empresa não apostou no seu potencial. Xuxa fechou com a Som Livre e, nos três anos seguintes, vendeu 12 milhões de discos”.

A dureza do orçamento era tão grande que em uma das faixas, Menescal tocou violão sob uma música de Dorival Caymmi (1914-2008), “Acalanto“. “Como é violão e voz, não tem custo de gravação. Gostei muito e é uma música bonita, que eu gosto”.

Eu acho este um disco muito importante, porque eu fui diretor artístico para lidar com Caetano, com Tim Maia, com Raul Seixas. A Xuxa era manequim, eu gravei quase que de mão dada com ela no estúdio. Acho que foi um disco importante na minha discografia – Roberto Menescal

Na semana de lançamento, Xuxa participou de uma tarde de autógrafos no shopping Rio Sul, no Rio de Janeiro. Dois dias depois, em 20 de novembro, realizou um pocket show na extinta loja Porcão, também na capital fluminense. Cantou algumas das faixas do disco, distribuiu prêmios, respondeu perguntas e autografou álbuns. Nada comparável, no entanto, ao padrão de espetacularização promovido nos grandes lançamentos — inclusive internacionais — que a Globo passaria a organizar a partir de 1986. O contraste é revelador: poucos meses depois, em junho de 1986, Xuxa estrearia na Globo e, ainda naquele ano, lançaria o primeiro álbum da série “Xou da Xuxa”, inaugurando a engrenagem industrial que redefiniria a música infantil no país.

Apesar de chegar discretamente às lojas em novembro de 1985, o lançamento oficial de “Xuxa e Seus Amigos” só viria em dezembro, embalado pelo especial televisivo homônimo na Manchete — uma despedida involuntária da emissora que a revelara, e um prólogo quase acidental do fenômeno que viria a seguir.

No final de 1985, porém, nada disso era evidente. Ainda durante a divulgação do disco, a Globo já vinha sondando a apresentadora. Estimava-se que a primeira oferta da emissora era de um salário quatro vezes superior ao que a Manchete pagava — um gesto que sinalizava o interesse estratégico da nova casa em moldar uma estrela nacional.

Os jornais da época, entre eles a Tribuna da Imprensa e a própria revista Manchete, apontavam que aquele não seria o primeiro álbum de Xuxa, mas o terceiro. De fato, em 1984 ela havia participado do LP “Clube da Criança”, cantando em três das 14 faixas. Mas “Xuxa e Seus Amigos” marcou sua estreia como protagonista absoluta: o primeiro álbum em que Xuxa canta do início ao fim, em todas as faixas, e cuja identidade musical dependia inteiramente dela.

Embora o LP tenha chegado às lojas em novembro de 1985, o lançamento oficial ocorreu em dezembro, logo após a exibição do especial televisivo produzido pela Manchete. Na cobertura do Jornal do Brasil, em reportagem de Márcia Lage, Xuxa dizia: “Não estou preocupada em ficar em primeiro lugar. Quero mostrar um trabalho feito com o maior carinho, uma opção divertida para a criançada que é sempre esquecida pelas emissoras de televisão nas noites de domingo. Como o especial está bem transado e traz convidados interessantes, acho que poderei agradar a outras faixas de público.”

E completava, em tom de desabafo profissional: “Essas gravações são o meu quintal, minha terapia. Quando pensei em fazer o especial, não imaginava que teria tanto trabalho. Mas valeu passar noites sem dormir, acordar em Corumbá (MS) e terminar o dia nos estúdios de emissora, em Água Grande (Irajá, Rio). Estou oferecendo à criançada um bom presente de Natal.”

O álbum é composto integralmente por duetos de Xuxa com nomes consagrados da MPB — Caetano Veloso , Marina Lima , Erasmo Carlos , Nara Leão , Zizi Possi . Tecnicamente, porém, nenhum dos duetos foi gravado de fato em parceria. As vozes dos artistas foram extraídas de gravações originais, e a voz de Xuxa foi adicionada posteriormente, em novos arranjos. No especial da Manchete exibido em dezembro, a situação se repetiu: poucos cantores apareceram presencialmente. Erasmo Carlos foi inserido digitalmente, enquanto Caetano, Chico não participaram da filmagem. Zizi Possi e Marina, por outro lado, marcaram presença. Há informações que Ney Matogrosso não teria autorizado a gravação de sua música em dueto com Xuxa. Curiosamente, esse especial também guarda um detalhe hoje anedótico: trouxe a estreia na televisão da atriz Fernanda Rodrigues , então criança, que participava do elenco.

O clima nos bastidores não era de aposta em um fenômeno. A própria Xuxa, à Revista Manchete em 1985, admitia não ter planejado um álbum solo: “Eu nunca pensei em fazer um disco solo — d – mas estava sentindo que isto fazia parte da minha profissão. Além disso, as crianças adoram quando eu canto. Por isso, achei necessário gravar um disco e tenho certeza que ele vai ser muito bem aceito no mercado.” O LP vinha acompanhado de um brinde: um quebra-cabeça com a imagem da capa, prenunciando a lógica mercadológica que, anos depois, se tornaria regra nos produtos licenciados da Rainha dos Baixinhos.

No Rio Grande do Norte, o jornal O Poti destacava o entusiasmo de Menescal e da equipe técnica: “A direção de produção de Xuxa e Seus Amigos é de Roberto Menescal. Xuxa e Seus Amigos é um disco para crianças de todas as idades e adultos de todos os tamanhos. Através desse LP, um brilhante lançamento da Polygram, Xuxa não transmite apenas alegria, mas muita energia — um trabalho feito com muito carinho”.