Aos 73 anos, Tony Ramos fala de novo filme, do casamento de mais de 50 anos, de aversão a redes e de religião: 'Não sou catequizador'

Tony Ramos é o protagonista do filme “45 do segundo tempo”, de Luiz Villaça, que estreia no cinema nesta quinta-feira (23). O longa conta a história de Pedro, um homem solitário que, ao reencontrar dois grandes amigos de infância após 40 anos, avisa que irá se matar logo depois de ver o seu time do coração, Palmeiras, ser campeão. O ator conta que aceitou o convite para o projeto quando começou a ler o roteiro:

  • Não é para querer me gabar nem nada, mas eu tenho uma grande experiência na leitura de roteiros. Eu comecei a ler esse filme e estava ainda na página 18 quando parei e liguei para o Villaça. Contei que estava muito emocionado e ao mesmo tempo me divertindo demais. É uma história que fala sobre esse tema tão delicado, a morte, e sobre a amizade e o reencontro. É algo que eu quero falar nestes dias. Não dá apenas para viver apenas no mundo de plástico das redes sociais. Eu não suporto esse negócio de mandar mensagem para amigos e parentes. Eu gosto do encontro, da troca de palavras.

Sobre levantar a discussão de um tema considerado tabu por muita gente, ele acha que é importante naturalizar a questão:

  • Sempre falamos de morte dentro da minha casa. Todo sabemos que somos finitos. Você tem várias maneiras de encarar isso: de forma obsessiva, de forma científica, se cuidando… É preciso falar sobre esse assunto no dia a dia, mas também não tornar uma meta de vida.

O filme foi rodado antes da pandemia e teve o seu lançamento adiado para poder estrear nos cinemas, e não diretamente numa plataforma de streaming. Era um desejo da direção e do próprio ator. O ator, de 73 anos, conta como atravessou o período difícil:

  • Eu me envolvi em algumas ações para ajudar pessoas da nossa área que ficaram completamente vulneráveis. Não só artistas, mas profissionais da parte técnica do teatro, por exemplo. O pior foi ver gente do próprio governo negando e atrapalhando ainda mais. Eu fico espantado em ver quem duvida da eficácia da vacina. Eu sempre acreditei na ciência. A ciência é uma permissão de Deus. Já tomei as minhas quatro doses e tomarei quantas forem necessárias.

Em casa, ele conta que a convivência mais intensa com mulher, Lidiane, no período de isolamento, não foi um problema. Os dois são casados há mais de 50 anos:

  • Eu me casei com uma pessoa absolutamente prática e com muito humor. Se eu tenho humor, ela tem dobrado. A gente conversava bastante. Vimos filmes e líamos muito também. Fomos passando o tempo. É claro que houve muita angústia. Ficamos sem ver os filhos e os netos, a não ser por chamada de vídeo. E até quando voltamos a nos ver eu percebi que a gente não se abraçava mais no almoço de domingo, por exemplo. Tinha todo aquele cuidado.

Ele ressalta que a religião foi também um suporte importante. Tony é católico e diz que desde cedo quis conhecer de perto outras religiões. Ele teve bastante contato, por exemplo, com o kardecismo e o protestantismo.

  • Sou um homem de fé, mas não sou catequizador. Quem é religioso sabe que a religiosidade passa pelo respeito a quem não é religioso. Eu sou um católico de fé, mas um ecumênico de pensamento. Quem sou eu para apontar o dedo para o muçulmano ou o judeu? E sou um homem do meu tempo, atento à leitura de vários assuntos, à liberdade de expressão e à importância da ciência. O meu Deus diz que a ciência faz parte do mundo.

Mas, mesmo atento às novidades do mundo, há algo a que Tony prefere não aderir: as redes sociais.

  • Não sou contra rede social, mas também não é algo que eu queira ter. De vez em quando aparecem perfis fakes meus por aí. A própria TV Globo fica verificando isso para mim e me ajuda nesse sentido. Eu fico sabendo das novidades pelo jornal. Eu adoro o jornal escrito. A única rede social que eu utilizo é o YouTube. Utilizo para assistir a filmes e shows raros, que só podem ser encontrados por lá - afirma.

Atualmente, Tony está gravando a série “Encantado’s”, em que vive um bicheiro:

  • É uma série muito divertida. O meu personagem aparece com uma caracterização muito rica. Estamos trabalhando seguindo protocolos rígidos contra a Covid. Temos um laboratório de testagem dentro da Globo. Recentemente, por conta da casos por lá, eu fiquei dois dias sem gravar, mas já estou de volta.

Tony Ramos no filme '45 do segundo tempo' (Foto: Divulgação)
Tony Ramos no filme ‘45 do segundo tempo’ (Foto: Divulgação)