Durante décadas, o “Fantástico” ocupou um lugar muito específico na televisão brasileira. Era a revista eletrônica que encerrava o domingo reunindo grandes reportagens, denúncias, jornalismo investigativo, comportamento, ciência e entretenimento na medida certa. Sempre foi um produto híbrido, mas havia um equilíbrio claro entre informação e espetáculo.
Nos últimos anos, porém, esse equilíbrio parece ter mudado. Cada vez mais, o programa dedica espaço à divulgação dos próprios produtos da Globo, aos bastidores de novelas, realities, séries e programas da casa. É uma estratégia compreensível do ponto de vista empresarial — afinal, a emissora precisa promover seu próprio conteúdo. O problema é quando essa autopromoção passa a ocupar o espaço que antes era destinado às grandes reportagens.
A sensação é que o “Fantástico” deixou de ser uma exceção na grade para se aproximar da identidade dos demais programas dominicais da emissora.
É curioso observar que existe hoje uma linha editorial bastante parecida entre atrações muito diferentes. O “Encontro”, “É de Casa”, o “Esporte Espetacular”, o “Domingão com Huck” e até o próprio “Fantástico” parecem conversar dentro de uma mesma proposta: histórias inspiradoras, comportamento, bem-estar, emoção, superação e divulgação dos produtos da empresa.
Essa uniformização faz com que os programas percam parte da identidade própria. Em alguns momentos, a impressão é de que basta trocar os apresentadores para que determinados quadros funcionem em qualquer faixa do domingo.
Não significa que o “Fantástico” tenha abandonado o jornalismo. O programa continua produzindo boas investigações e reportagens importantes, mas elas já não ocupam o protagonismo que tiveram durante boa parte de sua história.
Talvez por isso cresça nas redes sociais a percepção de que a revista eletrônica está mais próxima do entretenimento do que do jornalismo que a consagrou.
No fim das contas, a questão talvez não seja se o “Fantástico” piorou ou melhorou. A questão é que ele mudou de função dentro da estratégia da Globo. Antes, era o grande fechamento jornalístico da semana. Hoje, parece ser mais uma peça de uma programação dominical que aposta numa linguagem única — mais leve, mais emocional e cada vez mais integrada aos produtos da própria emissora.