CHRISTIAN E RENATO: Filha única, Lícia Manzo justifica obsessão em Um Lugar ao Sol: 'Sempre quis irmãos'

Lícia Manzo, parafraseando Nelson Rodrigues (1912-1980), assume que não seria ninguém se não fossem as suas repetições e obsessões. Afinal, com Christian e Renato (Cauã Reymond) em Um Lugar ao Sol, ela coloca irmãos no centro de uma história pela terceira vez seguida --a exemplo de A Vida da Gente (2011) e Sete Vidas (2015).

Em entrevista ao Notícias da TV, a roteirista admite que a sua fixação pelo tema é um tanto quanto paradoxal, já que é filha única:

Eu sempre quis irmãos, até porque o filho único é meio criado em laboratório (risos). Eles sempre têm que lutar pelo seu espaço, o que os leva a explodir, brigar, fazer as pazes sempre com maior rapidez. De um modo geral, as relações sociais são cheias de impedimentos, de máscaras, mas a figura do irmão rasga isso, porque traz a certeza do afeto.

A escritora explica que, tanto na vida quanto na ficção, há uma espécie de cola entre pessoas que dividem um mesmo pai, uma mesma mãe ou a mesma infância. “É algo muito poderoso, mas também muito dramático. O laço de família une, mas também aperta. Às vezes, você tem vontade de se livrar dele, mas aquilo é constitutivo. É parte de sua identidade”, pontua.

Lícia também se inspira em outra lacuna da própria vida ao criar um tipo muito comum em suas novelas, o da avó. Os próprios telespectadores já haviam apontado semelhanças entre Iná (Nicette Bruno), de A Vida da Gente, e Noca (Marieta Severo).

Uma proximidade que fica mais clara também por meio da vidência das matriarcas, que costumam jogar o tarô para saber o que há pela frente na vida de seus netos. A personagem de Marieta Severo, aliás, recentemente tirou a carta do Diabo para Lara (Andreia Horta) --a mesmíssima que havia saído para Ana (Fernanda Vasconcellos) há quase dez anos.

Eu não tive essa figura, porque as minhas [avós] morreram muito cedo, talvez seja até um pouco de nostalgia. Elas são grandes desorganizadoras de crenças, muito ativas em qualquer família. Se eu fizer mais uma novela, vai ter mais uma avó. É meu tributo a uma fatia da população que é equivocadamente ‘aposentada’ justo quando tem mais a oferecer.