CÍCLICO: Curta e toda gravada, Um Lugar ao Sol volta à pré-história da telenovela no Brasil

Toda gravada e mais curta, Um Lugar ao Sol é quase uma viagem ao passado: mais precisamente às décadas de 1950 e 1960. O folhetim estar pronto para ser exibido e contar com 107 capítulos é um retorno às origens da telenovela no país. Verdade que essa estratégia foi adotada devido à crise sanitária, mas o debate de que essa é uma “nova tendência” para os folhetins é chover no molhado.

“É curioso quando dizem ‘novelas curtas chegando ao mercado’. Nossa primeira novela diária 2-5499, Ocupado [1963] teve 42 capítulos! A primeira novela da Globo, Ilusões Perdidas [1965], teve 52 capítulos”, conta Mauro Alencar, doutor em Teledramaturgia Brasileira e Latino-Americana pela USP (Universidade de São Paulo).

Verdades Secretas 2, novela exclusiva do Globoplay, tem 50 capítulos e foi lançada como a primeira de várias tramas curtas que a plataforma de streaming fará. Alencar diz que o formato do folhetim de Walcyr Carrasco volta exatamente ao ponto de partida da história da telenovela no Brasil.

“Esse quadro atual que mistura novelas em torno de 50 capítulos, praticamente toda gravada, é um retorno à política da comunicação das décadas de 1950 e 1960. O que comprova que as aspirações humanas, na essência, permanecem as mesmas desde os tempos da Ilíada e Odisseia, de Homero [poemas épicos gregos do século 8 a.C]”, aponta o especialista.

A discussão sobre o encurtamento das novelas já acontece faz um tempo, mas, nos últimos anos, a média ainda girava em torno de 155 capítulos, até Amor de Mãe (2019) ser interrompida por causa da pandemia da Covid-19.

A novela de Manuela Dias sofreu cortes na história para voltar à exibição somente um ano depois de ter sido paralisada. Entre março e abril deste ano, a Globo apresentou 23 capítulos em vez dos 53 que faltavam.

Época de ouro das novelas
Para Alencar, esse suposto novo caminho das novelas é um tema complexo. O que o público está vendo com os projetos de Lícia Manzo e Carrasco, lançados em diferentes mídias do Grupo Globo, vai na contramão de um processo que acabou virando a “época de ouro” das novelas: as décadas de 1970, 1980 e 1990, de absoluto domínio da Globo no mercado brasileiro.

É preciso registrar para as gerações atuais, que chegam agora ao mercado da ficção audiovisual, que a nossa dramaturgia na TV nasceu e cresceu com produtos exibidos ao vivo ou totalmente gravados, desde os famosos teleteatros da TV Tupi, Bandeirantes e Cultura. Na grandiosa TV Excelsior foi que o jogo começou a mudar. Um exemplo é Redenção [1966], que de sucesso em sucesso, alcançou a marca de 596 capítulos --um bom exemplo de obra em aberto."

Mas será que o momento atual permite algo assim: novelas que duram anos? Ao que tudo indica, o formato de fazer novela toda gravada e mais curta pode mesmo voltar a ser realidade.

“Hoje, com o avanço de streaming, com outra dinâmica social e econômica, vemos um movimento cíclico da produção audiovisual”, conclui o autor de A Hollywood Brasileira - Panorama da Telenovela no Brasil.