Critica Kogut: Cauã Reymond em estado de graça com papel duplo em 'Um lugar ao Sol'

Esta semana, em “Um lugar ao Sol”, Cauã Reymond apareceu numa cena em que matutava: “O que eu ainda não sei sobre você?”. Era Christian, se referindo ao irmão, Renato. Na novela de Lícia Manzo, como se sabe, ele ocupou o lugar do gêmeo morto. Eles nunca conviveram e só se conheceram brevemente, já adultos. O público está a par de tudo, mas os demais personagens — com exceção de Ravi (Juan Paiva) — acreditam que estão lidando com Renato. É um Renato mais maduro e equilibrado, mas a mesma pessoa. Nem Bárbara (Alinne Moraes), sua mulher, imagina a verdade, embora já tenha notado que ele mudou. Esta não é a primeira vez que uma novela explora os possíveis conflitos que se abrem em torno de gêmeos idênticos. Um exemplo muito conhecido é o de “Mulheres de areia”, de Ivani Ribeiro. Na versão mais recente, Gloria Pires brilhou no papel duplo de Ruth e Raquel, a boa e a má. Àquela altura (1993), a Globo já dispunha de recursos de tecnologia necessários para que elas aparecessem juntas em cena. Foi marcante. Mas o que estamos vendo em “Um lugar ao Sol” é diferente. Uma das mais brilhantes autoras da sua geração, Lícia enveredou, sim, pelo melodrama. Mas não se limitou à dualidade barata. Ela foi muito mais longe na criação desses personagens. Verdade que a internet logo apelidou os irmãos de “o Cauã pobre” e o “Cauã rico”. Mas há muito mais separando os dois do que isso. Ela enfrentou o maniqueísmo fácil e vem obtendo sucesso nas dificuldades da sutileza. A cada sequência em que Christian é confrontado com algum traço do irmão ou um acontecimento da vida dele que ignora, mil camadas se apresentam. O personagem mantém o tempo inteiro um canal de diálogo consigo próprio. Só o telespectador enxerga aquele seu olhar perplexo, cheio de interrogações. O resultado é muito rico. Renato e Christian não são vilões nem mocinhos completos. Fogem às classificações tradicionais e se aproximam de figuras humanas e palpáveis da vida real.

Cauã Reymond provou seu talento inúmeras outras vezes. Ele já tinha também interpretado gêmeos. Foi em “Dois irmãos”, dirigido por Luiz Fernando Carvalho. É um ator aplicado e intenso. Ele mistura emoção à técnica adquirida ao longo dos anos. Sabe calibrar essas forças e, impressionante, até aqui, não perdeu de vista por um segundo sequer as multidimensões de seu personagem. Essa trama a cargo de outro profissional talvez não atingisse a mesma voltagem.

Se não pelo texto primoroso, pelas atuações em geral e pela direção certeira de Maurício Farias, vale acompanhar “Um lugar ao Sol” para apreciar o desempenho desse grande ator.