Daniel Dantas comenta o jeito de falar arrastado do Túlio, de ‘Um lugar ao sol’, e cita namoro com Leticia Sabatella

Daniel Dantas conta que vem recebendo a “resposta mais legal” que poderia ter por conta do seu desempenho como o inescrupuloso Túlio, em “Um lugar ao sol”. “As pessoas têm me falado que todo mundo está gostando muito de odiar o Túlio”, afirma o ator, de 67 anos, que já fez muito mais personagens adoráveis do que vilões ao longo da carreira, iniciada no teatro, na década de 1970.

Na atual trama das nove, o personagem é um tipo realmente condenável. Casado com a ex-modelo Rebeca (Andréa Beltrão), ele trabalha na rede de supermercados do sogro e mantém um caso com a engenheira Ruth (Pathy Dejesus). Além de serem amantes, os dois são cúmplices nos desvios de dinheiro da Redentor, a empresa da ficção. Ainda na história, Túlio tem sido a maior pedra no sapato do protagonista, Christian (Cauã Reymond), a quem chantageia para poder manter seu poder e as negociatas que realiza.

Numa conversa por telefone, o simpático Daniel conta como criou o detestável empresário da novela escrita por Lícia Manzo. A fala arrastada que emprestou ao personagem, explica ele, surgiu naturalmente durante o trabalho. Experiente, o ator admite que pode ter exagerado em alguns momentos. “São exageros pequenos”, diz ele, que pensou nessa forma pausada de falar para tornar Túlio ainda mais antipático aos olhos e ouvidos dos telespectadores.

Rebeca (Andrea Beltrão) e Túlio (Daniel Dantas)

Rebeca (Andrea Beltrão) e Túlio (Daniel Dantas) Foto: Rede Globo/Divulgação

A seguir, Daniel fala sobre o personagem da novela e conta que agora em 2022 planeja mais trabalhos: ele pretende voltar com uma nova temporada de “Ilíada de Homero”, espetáculo já apresentado por ele em 2021. Namorado de Leticia Sabatella, Daniel diz, ainda, que uma boa relação precisa de muita conversa. E analisa que misturar trabalho e amor pode acabar sendo “delicado e perigoso”. A parceria com Andréa Beltrão, atriz com quem já contracenou outras vezes na ficção, também é destaque na conversa.

Os personagens de “Um lugar ao sol” são complexos e cometem erros e acertos. Mas Túlio é um dos poucos que podem ser classificados como vilão. Como você o enxerga?

As pessoas têm me falado que todo mundo está gostando muito de odiar o Túlio. Ele é um cara detestável e representa um certo tipo que chegou ao poder em várias partes do mundo. Especialmente no Brasil. É um tipo de pessoa que só tem medos e ódios. Um homem apavorado. Ele só não é um psicopata porque tem um lado em que ainda há espaço para o afeto. Mas Túlio está inserido num sistema que estimula uma certa psicopatia, o cada um por si, a falta de empatia, a destruição imediatista. É o homem lobo do homem (famosa frase do filósofo inglês Thomas Hobbes, que significa que o homem é o maior inimigo do próprio homem).

Qual é a parte mais complicada de interpretar um vilão assim?

Já fiz outros vilões, até mesmo no teatro. Mas o que vale para mim é que estou interpretando uma pessoa. Eu não penso que estou só cumprindo uma função dentro da história quando estou trabalhando. Estou construindo aquela pessoa da ficção. Claro que esse cara é um escroto quando o olho de fora. E não tem como eu defendê-lo. Mas também tem um outro lado dele além dos golpes, daquele dinheiro da empresa que ele tira por fora, o que é inaceitável. Túlio realmente trabalha pesado há muitos anos. Até mesmo os trambiques que ele faz dão trabalho. Mas é óbvio que valeria muito mais a pena ele ter sido um cara honesto.

Como você trabalhou a composição dele? Por que adotou um jeito de falar mais arrastado?

Eu tenho um jeito meu de falar com essas pausas. Para o Túlio, estendi um pouco mais as pausas em alguns momentos. Tem uma forma arrastada dele de falar que pode ser antipática. Eu posso ter exagerado às vezes, mas esses exageros são pequenos. Eu corrigiria alguns momentos em algumas cenas. É uma pena não poder fazer isso (a novela já está totalmente gravada). Essa não foi uma coisa que eu pensei para o personagem, foi surgindo com ele, nas gravações. Eu não fico fazendo a psicologia do personagem, não trabalho dessa forma.

Túlio está sempre tramando. Como foi lidar com essa carga negativa dele durante as gravações da novela? Era fácil se desligar do personagem ao chegar em casa?

Era bastante tranquilo para me desligar dele depois das gravações. A matéria-prima que eu tenho para trabalhar é o texto. Quando o texto é bom, e no caso da Lícia (Manzo), é ótimo, tudo o que você precisa é estar ali, presente na hora da gravação. É só decorar o texto e fazer o que estão pedindo. Por mais que você pense em várias soluções para uma cena antes de gravar, na hora em que vai para o estúdio é que as coisas realmente acontecem. E tudo o que você programou pode acabar mudando.

Na novela, a enteada de Túlio, Cecília (personagem de Fernanda Marques), deixa claro para a mãe que não gosta dele. Aconteceu algo entre os dois no passado?

Túlio é um galinha. Ele dava umas olhadas para a Cecília e ela ficava incomodada. Mas não vai ter nenhuma trama mais aprofundada entre eles dois. Por conta da pandemia, a novela acabou sendo mais curta e algumas histórias não foram desenvolvidas.

Túlio (Daniel Dantas) e Ruth (Pathy Dejesus)

Túlio (Daniel Dantas) e Ruth (Pathy Dejesus) Foto: Rede Globo/Divulgação

Você e Andréa já trabalharam juntos outras vezes e já fizeram um casal marcante no filme “Pequeno dicionário amoroso” (1997). Isso facilita o jogo cênico entre os dois na novela?

Somos íntimos, muito amigos, realmente já trabalhamos juntos várias outras vezes. Eu tenho uma confiança grande na Andréa como pessoa e atriz. Isso nos ajuda nos trabalhos. Mas, no caso da novela, é uma outra relação, com um outro texto, de um outro autor, diferentemente dos trabalhos anteriores que fizemos.

Túlio, agora, só enxerga Rebeca como uma forma de se manter na empresa do pai dela?

Não. A relação de Túlio com Rebeca é uma forma de humanizá-lo. Você nota que já existiu um carinho, um amor, um tesão dele por Rebeca. Existiu e ainda persiste. Mas aquele é um casamento desgastado, eles estão juntos há 15 anos. Aliás, essa é a dificuldade dos casamentos em geral. Quando você para de olhar o outro…

Qual seria a melhor fórmula para um casamento duradouro funcionar?

Acho que tem que conversar pra caramba, discutir pra caramba. É muito chato, mas é o único jeito de dar certo. Tem que ir ajustando a relação o tempo todo. Senão depois você cai em certos buracos e fica impossível de sair deles depois.

Leticia Sabatella, sua namorada, fez um texto no Instagram defendendo a forma que você escolheu para compor Túlio. Ela elogia suas entrega e conduta profissional e diz que você é “um ator fora de qualquer curva”. Vocês têm vontade de trabalhar juntos, agora que são um casal?

Eu e Lelê pensamos em várias coisas, mas, particularmente, acho um pouco delicado e perigoso para uma relação isso de o casal trabalhar junto. A gente não se obriga a nada. E, ao mesmo tempo, também não há nada que nos impeça de ter um projeto a longo prazo. Só que realmente temos métodos bastante diferentes de criação e execução. Ela tem uma forma muito intensa de trabalhar, de embarcar nos personagens. Eu já sou mais objetivo, gosto de trabalhar mais a imaginação material. Mas repito: nossa relação não nos obriga a nada disso.

Por falar em Instagram, você tem um perfil, criado no ano passado, mas não costuma postar com muita frequência. Como é a sua relação com as redes sociais?

Eu nunca tinha entrado nessa onda das redes e demorei para criar o perfil. Mas tudo o que posto no Instagram tem a minha cara e a minha mão. Sou eu mesmo que cuido das postagens e fico pensando que poderia estar um pouco mais presente ali.

Tulio (Daniel Dantas)

Tulio (Daniel Dantas) Foto: Fabio Rocha/Rede Globo/Divulgação

Voltando ao Túlio… Você acha que um personagem como ele poderia ter algum tipo de redenção no final da novela? Ou deveria ser realmente punido?

Só se ele virasse uma outra pessoa, né? (risos). Mesmo depois de ter tido aquela parada cardíaca e de ter sido salvo por Christian, ele avisa que nada mudou entre eles. Ou seja, Túlio teve um ataque e voltou da mesma forma, não repensou nada sobre a forma como ele leva a vida.

Túlio vai ser assassinado por Bárbara?

Eu não me lembro de ter gravado isso (risos). A gente fez umas versões diferentes da fuga num helicóptero antes de ele morrer (que é um dos finais possíveis para o personagem).

Você ficou satisfeito com o desfecho atribuído ao seu personagem na novela?

Na minha opinião, se fosse na vida real, ele teria que apodrecer na cadeia depois de ter todos os seus crimes provados e de ser condenado. Túlio deveria ficar preso como os poderosos que hoje também vemos na cadeia.

Você encerrou recentemente uma temporada de “Ilíada de Homero”, em que interpreta poemas clássicos da Grécia Antiga. Já tem planos para voltar com o espetáculo neste ano que começa?

Sim. Faço a narração dos personagens gregos na peça. Por conta da pandemia, fizemos o espetáculo apenas comigo no elenco. Mas, além de voltar com o espetáculo nesse modelo, também quero estrear uma temporada com mais atores no elenco e encenar outros cantos da “Ilíada”.

Realidade: todo personagem dele é assim