Dia do Orgulho Bissexual: entenda por que a data é necessária

Data celebrada internacionalmente no dia 23 de setembro reflete sobre o avanço nos direitos das pessoas bissexuais e sobre sua invisibilidade dentro do movimento LGBT+

O Dia do Orgulho e da Visibilidade Bissexual é celebrado internacionalmente em 23 de setembro. A data foi criada para celebrar a história e a cultura das pessoas bissexuais. Com o tempo, a população bissexual expandiu a comemoração para todo o mês de setembro, visando ampliar o conhecimento sobre a orientação sexual e sua memória.

A data foi observada pela primeira vez em 1999 na Conferência da Associação Internacional de Lésbicas e Gays (ILGA), em Joanesburgo, na África do Sul, a partir de uma ideia de três ativistas dos direitos bissexuais: Wendy Curry, Michael Page e Gigi Raven Wilbur.

Na mesma década, foi publicado o Manifesto Bissexual pela revista “Anything That Moves”. Como destaca o documento: "Bissexualidade é um todo, uma identidade fluída. Não assuma que a bissexualidade é naturalmente binária ou poligâmica, que nós temos “dois” lados ou que nós precisamos estar envolvidos simultaneamente com dois gêneros para sermos seres humanos completos. De fato, não assuma que existem apenas dois gêneros. Não interprete nossa fluidez como confusão, irresponsabilidade ou inabilidade de assumir compromisso. Não equipare promiscuidade, infidelidade ou comportamento sexual inseguro com bissexualidade. Esses são comportamentos humanos que atravessam todas as orientações sexuais. Nada deve ser presumido sobre a sexualidade de ninguém, incluindo a sua”.

No Brasil, o movimento de pessoas bissexuais começou a se fortalecer nos anos 2000, com a criação de coletivos de ativismo bissexual como o Espaço B, criado em 2004, um braço da Associação da Parada GLBT (Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros) de São Paulo e os grupos Coletivo Brasileiro de Bissexuais (CBB) e o Núcleo Bis (Núcleo de Bissexuais de Brasília – Distrito Federal), criados no ano seguinte — além de dezenas inaugurados nos anos posteriores. Esses movimentos têm, desde sua criação, denunciado discriminações relacionadas às bissexualidades, questionado o apagamento da orientação sexual nos ambientes LGBT+ e heterossexual e discutido a importância de falar sobre essas vivências.

Para Caio Passos, militante da causa bissexual no Brasil e integrante da Frente Brasileira Bissexual — rede de articulação nacional que integra onze coletivos independentes — o estigma contra pessoas bissexuais ainda é um dos principais obstáculos a serem enfrentados.

— Os principais desafios para a garantia dos direitos de pessoas bissexuais são os preconceitos e estigmas que precisamos desconstruir todos os dias. Eles criam uma imagem deturpada da pessoa bissexual, colocando-a em uma situação suscetível a violências e exclusão. Existe uma crença de que os bissexuais são maiores disseminadores de doenças, confusos, promíscuos e diversas outras construções culturais que nos colocam em uma posição de vulnerabilidade — afirma.

Segundo uma pesquisa realizada em 2016 pela incubadora Invisible Majority, desenvolvida pela entidade norte-americana Movement Advancement Project (Map), 40% dos bissexuais já pensaram em suicídio, uma porcentagem maior do que pessoas gays e lésbicas (30%) e heterossexuais (12%). Os altos índices também se repetem na discriminação no emprego quando 58% dos bissexuais já foram expostos a insultos preconceituosos e 32% foram abusados sexualmente pela sua orientação sexual.

Passos é um dos muitos brasileiros que já precisaram conviver com a bifobia — atitudes que oprimem pessoas bissexuais. Desde jovem, Caio foi vítima de insultos discriminatórios por conta da sua orientação sexual.

— Sofri diversas violências por conta da minha sexualidade. A primeira vez que percebi a bifobia na minha vida foi quando uma pessoa me disse que bissexuais tinham chance dupla de transmitir Infecções Sexuais Transmissíveis (ISTs) e, por isso, éramos perigosos. Senti minha humanidade ser totalmente esvaziada. Fui exposto a muitas outras falas bifóbicas, desde pessoas LGBTfobicas até companheiros da sigla que se recusaram a ter relações comigo por eu ser bissexual — explica Caio.

A advogada e professora Giowana Cambrone, vice-presidente da Comissão de Diversidade Sexual e de Gênero da OAB do Rio de Janeiro, reflete sobre os impasses na legislação brasileira na garantia de direitos pelas pessoas bissexuais.

— Não há legislação ou mesmo jurisprudências sobre a bissexualidade. Em tese, a pessoa bissexual quando vivencia uma relação heteroafetiva goza de todos direitos, tal qual as pessoas heterossexuais. As limitações existiam quando a pessoa bissexual vivenciava uma relação homoafetiva, mas isso foi superado com as diversas conquistas no campo do direito LGBT+ — comenta.

Para Giowana, a bissexualidade não é somente invisibilizada, mas é também incompreendida, o que pode interferir na garantia de direitos.

— Essa incompreensão talvez se dê por duas questões. A primeira por que todas as conquistas em torno de direitos sexuais ocorreu por lutas identitárias, por pessoas que afirmavam ter aquela orientação sexual e se organizavam em torno de uma agenda e pauta comum. Enquanto alguns movimentos se fortaleceram, como o feminismo defendendo os direitos e buscando igualdade de gênero, as pautas e agenda bissexual ficaram apagadas pelo movimento LGBT+, que apesar das diversas e importantes conquistas, não é prioritariamente bissexual. Outro fator, é que as pessoas que vivenciam a bissexualidade muitas vezes não se reconhecem como bissexuais, reproduzindo a lógica binária heterossexual ou homossexual — destaca.

Vitória Régia da Silva, integrante do grupo Bisibilidade, coletivo de mulheres bissexuais do Rio de Janeiro, relata que sofre triplo preconceito por ser mulher, negra e bissexual. Ela destaca que o principal desafio para a conquista de direitos é a falta de visibilidade e representação das pessoas bissexuais nos espaços públicos:

— A hipersexualização de corpos negros e bissexuais femininos é um estigma que nos persegue. A ideia de que só porque sentimos atração por todos os gêneros somos promíscuas, não nos “contentamos com um gênero” ou só somos objetos de desejo e não de amor é muito cruel, racista e bifóbica. Sofremos com preconceitos e estigmas negativos dentro e fora da comunidade LGBT+, que, muitas vezes, não consegue entender a violência que sofremos cotidianamente por estarmos "fora da norma” heterossexual e monossexual. Já ouvi de mulheres lésbicas que eu era transmissora de IST’s e que por ser bissexual não era confiável, o que impedia que elas se relacionassem comigo

Vitória reflete sobre a falta de representação de pessoas bissexuais nos espaços públicos:

— A ausência de pessoas bissexuais nos lugares de tomada de decisão faz com que sejamos esquecidos nas políticas publicas destinadas à população LGBT+ e colocados como um subtópico dentro da homossexualidade. Nossas especificidades enquanto grupo precisam ser entendidas e respeitadas para avançarmos em criar um ambiente seguro e diverso para a população bissexual — pondera.

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