DIA PARA CELEBRAR? Com censura e cura gay, Globo não dá motivos para ter orgulho de ser LGBTQIA+

Nesta quarta-feira, 28 de junho, é celebrado o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+. A televisão brasileira, porém, não está dando muitos motivos para a comunidade comemorar. Em Amor Perfeito, Érico (Carmo Dalla Vecchia) vai vivenciar uma “cura gay” e se envolver com uma mulher. Já Vai na Fé tem censurado os beijos de Clara (Regiane Alves) e Helena (Priscila Sztejnman), a ponto de um mero selinho virar motivo de festa na internet.

Carinhos homossexuais serem cortados de novelas não são exatamente uma novidade --em 2005, Júnior (Bruno Gagliasso) e Zeca (Erom Cordeiro) já tinham sido proibidos de se beijarem no final de América. Mas 18 anos se passaram, e a representatividade homoafetiva deveria ter evoluído ao atingir essa “maioridade” dramatúrgica. Não é o caso.

O que se percebe, na verdade, é um retrocesso. Há quase dez anos, o público brasileiro acompanhou (e vibrou) com o beijo de Félix (Mateus Solano) e Niko (Thiago Fragoso) no último capítulo de Amor à Vida (2013). O romance com o “carneirinho” fez parte do processo de redenção do vilão --que foi abraçado pelo público independentemente de sua orientação sexual (e de atrocidades como jogar a própria sobrinha em uma caçamba de lixo).

De lá para cá, tivemos casais homoafetivos em todos os horários de novelas da Globo. As pioneiras de Malhação (1995-2020) foram Lica (Manoela Aliperti) e Samantha (Giovanna Grigio), um fenômeno com o público. Às seis, Orgulho e Paixão (2018) mostrou o romance de época entre Luccino (Juliano Laham) e Otávio (Pedro Henrique Müller). E às sete, Bom Sucesso (2019) puxou a fila com um selinho de Pablo (Rafael Infante) e Willian (Diego Montez). Na faixa das onze, rolou inclusive sexo entre homens, tanto com viés romântico em Liberdade, Liberdade (2016) quanto na pegação frenética de Verdades Secretas 2 (2021).

Até Record e SBT, hoje presas em folhetins bíblicos e infantojuvenis, respectivamente, já apostaram em romances LGBTQIA+ em suas novelas no passado. A emissora de Silvio Santos, aliás, foi mais rápida do que a própria Globo ao exibir um beijo entre Marina (Giselle Tigre) e Marcela (Luciana Vendramini) em Amor e Revolução (2011).

Nos bastidores, o que se comenta é que Amauri Soares (atual diretor dos Estúdios Globo) tem mandado passar a tesoura nas cenas de Clara e Helena para não “assustar” o público evangélico --a trama de Rosane Svartman, afinal, foi feita para atrair esses espectadores de volta à frente da TV. Mas ainda é difícil acreditar que, na sociedade atual, a audiência conservadora se choque mais com uma demonstração de carinho entre duas mulheres do que com as barbaridades cometidas por Theo (Emilio Dantas).

Carmo Dalla Vecchia, que se assumiu publicamente homossexual em 2021 depois de passar anos no armário, não fala em cura gay para o seu personagem em Amor Perfeito. Em entrevista divulgada pela Globo à imprensa na terça-feira (27), o ator preferiu se aproveitar do fato de novela ser uma obra aberta para fazer suspense sobre o futuro de Érico.

“Ainda é muito cedo para a gente falar sobre trama, sobre o que vai acontecer até o final dessa novela. Esse personagem começou com um romance com o Romeu [Domingos de Alcantara] e, no meio da trama, se envolveu com a Verônica [Ana Cecília Costa], e o afeto que ele sente por ela não é falso. Então, eu acho uma raridade a gente apresentar um personagem com tantas camadas, mostrando esse encaminhamento da orientação sexual, em uma novela das seis, de época, o que é bonito demais”, discursou.

“É muito interessante você mostrar esse recorte, porque a gente tem um personagem bissexual em uma história de época. Como é que as pessoas enxergavam isso e como se relacionavam? A sexualidade dele não vem antes do fato de ele ser um humano, uma pessoa. Isso, seja na época que for, não muda. Mas, sem dúvida, o preconceito era muito maior”, continuou o ator.

O curioso é que a própria saída do armário de Carmo há dois anos deveria ser uma representação dos avanços da sociedade nos últimos anos. Galãs como Marco Pigossi, Jesuita Barbosa e Alejandro Claveaux se revelaram parte da comunidade --e continuam sendo escalados para papéis de destaque na TV. O mesmo vale para mulheres, com Vitória Strada, Nanda Costa, Bruna Linzmeyer e Lucy Alves já tendo declarado oficialmente sua identidade LGBTQIA+.

É uma pena que, em pleno 2023, a representatividade crescente nos bastidores da Globo não seja mais espelhada no conteúdo exibido ao público. Depois de quatro anos sombrios, em que a sociedade revelou suas facetas mais perversas, era de se esperar que o Brasil caminhasse para a frente. Quem deveria ser trancado no armário é o preconceito e o ódio, e não o amor.

Tomara que, daqui a um ano, a comunidade LGBTQIA+ tenha mais motivos para comemorar do que nesta quarta-feira. Porque, pelo menos na TV aberta, está difícil encontrar razões para ter orgulho.

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a globo precisa de novos escritores de novelas com mentalidades mais modernas.