DRAMALHÃO - Nos Tempos do Imperador: Calvário de Dolores faz novela virar Maria do Bairro

Dolores (Daphne Bozaski) tem vivido dias de terror desde o início de Nos Tempos do Imperador. A personagem ainda era criança quando foi praticamente vendida pelo pai para Tonico (Alexandre Nero), que desde então tem se empenhado em transformar a vida da garota em um inferno.

Nos capítulos mais recentes, o sofrimento dela chegou a outro nível e até internada em hospício ela foi, o que aproximou a sua saga de dramalhões dignos de folhetins mexicanos como Maria do Bairro (1995).

Não é incomum que mocinhas de novelas passem por calvários ao longo de suas trajetórias. Entretanto, o que chama a atenção com Dolores é o nível exacerbado de sofrimento que ela encarou ao longo da história escrita por Alessandro Marson e Thereza Falcão.

Existe também um contraste claro entre a personagem e sua irmã, Pilar (Gabriela Medvedovski). A médica, que deveria ser a verdadeira protagonista da história, é mais destemida, empoderada, apesar de também ter seu estoque cativo de lágrimas. Porém, foi a tragédia interminável de Dolores que cativou os telespectadores --basta ver a torcida pela personagem nas redes sociais.

A filha de Eudoro (José Dumont) não foi apenas obrigada a se casar contra a sua vontade, mas também humilhada de todas as maneiras possíveis pelo marido. Tonico a agrediu verbalmente e a estuprou. Ele até bateria nela com um cinto, em uma sequência que acabou cortada da novela.

A cada humilhação, e também graças à performance sensível de Daphne, o público se compadeceu cada vez mais da personagem, o que a fez roubar de vez o protagonismo da história. Por isso, o casal fofo formado entre ela e Nélio (João Pedro Zappa) angariou tanta torcida dos fãs do folhetim.

Mais uma vez, o desempenho dos atores foi fundamental, e a doçura que eles imprimiram aos personagens permitiu que a audiência encontrasse um par romântico para fazer de seu xodó. Por meio desse amor proibido, Dolores achou um alento para seu sofrimento, algo que também trouxe paz em quem assiste à novela.

Maria do Bairro

María la Del Barrio

Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer o exagero na saga da personagem. Só nos últimos capítulos, ela viu seu amado ser supostamente morto, foi internada em um hospício e ainda ouviu de Tonico que ele pretende se casar com a filha bebê dela quando a menina crescer.

A passividade da jovem contrasta com uma tendência mais evidente em novelas recentes: a de protagonistas mais fortes e menos coitadinhas. Mesmo em O Clone, uma trama de 2001 atualmente em reprise, já se percebe um outro perfil na figura de Jade (Giovanna Antonelli).

A muçulmana é, sim, uma sofredora de carteirinha, mas também é decidida e linguaruda, sem medo de lutar pelo que acredita. Na novela das sete, Quanto Mais Vida, Melhor!, Flávia (Valentina Herszage) é uma dançarina que se dá mal no amor, mas que não pensa duas vezes antes de falar o que pensa e seguir sua intuição.

Outros folhetins como Avenida Brasil (2012), A Força do Querer (2017) e Amor de Mãe (2019) seguiram a mesma linha de mocinhas menos passivas, mais certas do que queriam.

De acordo com Mauro Alencar, doutor em Teledramaturgia Brasileira e Latino-Americana e autor do livro A Hollywood Brasileira, essa mudança no perfil das mocinhas está diretamente relacionada a alterações decorrentes da sociedade civil.

“Certamente a mudança ocorre em função dos movimentos sociais que estão cada vez mais intensos e amplificados no mundo. Isso, claro, reflete na produção de teledramaturgia. Mas devo registrar que no Brasil essa mudança começou na década de 1970, fruto da revolução comportamental de maio de 1968 a partir da França”, destaca ele ao Notícias da TV .

Também é verdade que a fórmula de “sofrência interminável” é um trunfo que sempre se mostra eficiente. Tanto que está sempre presente nos dramalhões mexicanos, novos queridinhos do Globoplay.

Em Maria do Bairro, por exemplo, a protagonista vivida por Thalía comeu o pão que o diabo amassou, sendo humilhada pelo marido, por familiares dele, perseguida por uma vilã maluca, ficando transtornada e dando o próprio filho embora, sendo presa injustamente, perdendo a memória e acabando sequestrada nos últimos capítulos.

E o folhetim ainda é um sucesso até hoje, apesar das inúmeras reprises que já ganhou. “[O sofrimento exagerado] É uma característica da sociedade mexicana refletida em sua produção de novelas. Ecos do processo de colonização do México”, ressalta Alencar, sobre o estilo adotado pelos folhetins do país latino.

Apesar disso, é nesse espaço do drama exagerado que a trama de Dolores parece ter encontrado seu êxito. Com os maus-tratos constantes à menina, que nunca fez mal a ninguém, o público ganha uma porta imediata de identificação. Os fãs sofrem, choram e torcem por ela, como se a conhecessem.

Mauro Alencar explica que a empatia que o público sente por personagens sofredores está diretamente relacionada ao melodrama, elemento crucial na produção de folhetins:

Esse gênero surgido na ópera italiana rege basicamente todo folhetim, radionovela e telenovela produzida na América Latina, incluindo o Brasil. Ou seja, esse sofrimento seguido por uma resolução de prazer está na raiz da telenovela e no comportamento latino de modo geral. E, para ser mais amplo, tenho observado que na maioria da produção cultural de massa.

É nítido que existe um exagero na forma como a personagem tem sido tratada na novela das seis da Globo. Mas também fica claro que esse é um dos pontos que mais atraiu a audiência para Dolores. Ela pode até ser Maria do Bairro, mas se todo mundo gosta de Maria, qual é o problema?

Nos Tempos do Imperador se passa cerca de 40 anos após os acontecimentos de Novo Mundo (2017). A novela terminará no próximo mês dando lugar à exibição de Além da Ilusão, de Alessandra Poggi.

Tonico só leva vantagem nessa novela

Ódio viu