Duh Secco (RD1): Marcílio Moraes relembra Sonho Meu e analisa relação do streaming com autores

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Quase 28 anos após a estreia na Globo, Sonho Meu volta ao vídeo nesta segunda-feira (12) através do Canal Viva . A trama de Marcílio Moraes será exibida às 12h40, com reapresentação à 1h30. No centro da narrativa está Cláudia (Patrícia França), que une-se ao milionário Lucas (Leonardo Vieira) para salvar a vida da filha Maria Carolina, a Laleska (Carolina Pavanelli). Vítima do pai Geraldo (José de Abreu) e da tia Elisa (Nívea Maria), a garota encontra o apoio do bondoso Tio Zé (Elias Gleizer).

Nesta entrevista exclusiva para a coluna, Marcílio Moraes recorda os bastidores da produção – inclusive a interferência da emissora no enredo. O autor também comenta a inclusão de obras assinadas por ele em plataformas de streaming e a reivindicação por direitos autorais. Moraes ainda lamenta a desvalorização da categoria em tal mídia: “ Criam-se as chamadas “salas de roteiro”, que muitas vezes são comandadas por produtores, diretores, etc, gente que nunca escreveu uma linha na vida ”.

Confira:

RD1 – Sonho Meu foi uma encomenda da Globo pra você. Como recebeu essa tarefa e como se deu a implantação da novela?

Marcílio Moraes – No início da década de noventa, a Globo havia comprado os direitos de várias novelas de autores da Tupi e outras emissoras, exibidas nas décadas anteriores. Comprou originais da Ivani Ribeiro, do Teixeira Filho e outros autores. O Walcyr [Carrasco], por exemplo, desenvolveu várias da Ivani, anos mais tarde. Voltando a 1993, o Mário Lúcio Vaz, então diretor de dramaturgia da emissora, me pediu uma novela juntando dois textos do Teixeira Filho: ‘A Pequena Órfã’ e ‘Ídolo de Pano’. Li alguns capítulos das duas e tomei uma decisão dramatúrgica: a mãe da pequena órfã vai ser a mulher que os dois irmãos de ‘Ídolos de Pano’ disputam. Estava feita a fusão. A partir daí, sem perder os personagens principais e algumas tramas, criei uma novela inteiramente nova, muito diferente das originais. Acho que ficou bacana. Ou seja, em momento algum, pensei em fazer um remake, uma repetição ipsis litteris do que o Teixeira havia escrito. Achei que devia mais à dramaturgia, ao talento e à criatividade dele: ou seja, uma obra nova. Foi o que fiz.

Sonho Meu

Fábio Assunção (Jorge) em Sonho Meu; ator se destacou no primeiro papel de vilão (Imagem: Divulgação / Globo)

RD1 – Sonho Meu contou com inúmeros talentos no elenco. Quem você destacaria ou para quem sentia prazer em escrever?

Marcílio Moraes – Quando escrevo, me centro muito nos personagens. Me dedico a desenvolver o personagem para que o/a intérprete tenha o campo mais amplo para aprofundar o seu trabalho e mostrar as nuances do ser que ele encarna. Então, tenho dificuldade de destacar este ou aquele intérprete, sem deixar de reconhecer o enorme talento do elenco que tive. Leonardo Vieira, Patrícia França, Beatriz Segall, Fábio Assunção, Walmor Chagas, Flávio Galvão, Jayme Periard, Françoise Forton, Débora Duarte, Carlos Alberto, Cláudia Magno, Sérgio Fonta… Precisaria citar todos eles para ser minimamente justo.

RD1 – Em sua página no Facebook, você levantou questões sobre a protagonista da trama, Cláudia. Por pressão da audiência, segundo a Globo, ela não poderia enganar o homem que amava. Cláudia então revelou sua bigamia, abrindo mão da proteção de Lucas e colocando este na mira de Geraldo, o primeiro e violento marido. Acredita que tal entrecho seria conduzido de forma diferente hoje?

Marcílio Moraes – A direção da Globo alegou ter recebido cartas de espectadores indignados com a bigamia da protagonista, Cláudia, afirmando que “ela não podia mentir para o homem que ama”. Essas cartas nunca foram mostradas, pelo menos para mim. O fato é que fui constrangido a acelerar brutalmente e resolver de forma inverossímil uma trama que estava prevista na minha sinopse, onde também estava apontada a solução que daria a ela. E eu estava convicto que os espectadores, especialmente as espectadoras acompanhavam a trama numa boa, conheciam as elevadas razões que levavam a personagem a agir assim, torciam por ela, não a abandonariam de jeito nenhum porque se identificavam com ela. A prova cabal disto era a extraordinária audiência que tinha a novela. Aí vem uma interferência de cima, mal explicada, careta, hipócrita, sobrepondo uma moral abstrata, formal, à ética que a personagem estava construindo para superar o impasse e salvar-se.

A boa dramaturgia não se faz assim. E é por essas e outras que o espectador brasileiro, o povo brasileiro, tem tão pouca capacidade crítica. Eu gostaria de saber como se posicionariam as feministas de hoje sobre essa questão. Perguntaria também: e se fosse homem o protagonista, haveria “cartas” exigindo que ele não mentisse à mulher que ama?

RD1 – Quais outras discussões de Sonho Meu merecem atualização?

Marcílio Moraes – Muitas. Violência doméstica, maus tratos à infância, barreiras preconceituosas à ascensão social, o drama das crianças de rua e por aí vai. Tudo isto numa novela das seis, do gênero infantil, que foi a segunda maior audiência da Globo na década de 90.

Sonho Meu

Leonardo Vieira (Lucas) e Patrícia França (Cláudia) em Sonho Meu; trama do gênero infantil explora diversas questões sociais (Imagem: Nelson Di Rago / Globo)

RD1 – Apesar do êxito, a novela só ganha reprise agora, 28 anos após a exibição original, no Canal Viva. A que atribui o “esquecimento” da Globo quanto à produção?

Marcílio Moraes – Certamente não foi um esquecimento. Eu não sei a que atribuir. Tem que perguntar aos figurões que comandaram a Globo ao longo desse tempo. Alguém, certa vez, me disse que a direção da emissora achava a apresentação da novela cafona. Enfim, boatos, só mesmo perguntando a eles.

RD1 – Você esteve à frente da Associação dos Roteiristas por muito tempo, cuidando dos interesses dos profissionais deste setor. Acredita que os autores têm sido valorizados, inclusive financeiramente, neste momento, em que todas as emissoras recorreram ao acervo nos canais abertos e em outras plataformas?

Marcílio Moraes – Pelo contrário, o que vejo hoje em dia é a tentativa sistemática de desvalorizar os autores-roteiristas e a própria autoria, no nosso audiovisual. As novas plataformas de streaming estão impondo aos profissionais brasileiros cláusulas abusivas e ilegais, de acordo com a legislação brasileira, aos contratos firmados. Tem a chamada cláusula byout, em que o autor-roteirista é obrigado a ceder absolutamente todos os seus direitos à empresa. Não poderiam fazer isto, mas fazem. A própria Globo, que tradicionalmente valorizou o autor-roteirista, tem ensaiado recuos no respeito aos direitos destes profissionais.

E mais uma coisa: tenho várias novelas minhas disponíveis no streaming, tanto as que escrevi na Globo quanto na Record, e nada recebo por isto, o que é uma injustiça, para falar pouco.

Sou presidente da GEDAR, uma associação dedicada à defesa e implementação dos direitos dos autores-roteiristas. Estamos nos preparando para lançar uma grande campanha nesse sentido.

RD1 – No momento, muito se fala sobre novelas no streaming. Após passagens por Globo e Record, podemos esperar por você neste novo nicho?

Marcílio Moraes – Você fala de novas obras? Por ora, pelo menos, nada. Acho que esse pessoal tem medo de mim. Talvez isto seja um sintoma daquela desvalorização da autoria, de que falei. Criam-se as chamadas “salas de roteiro”, que muitas vezes são comandadas por produtores, diretores, etc, gente que nunca escreveu uma linha na vida. E assim, vai-se eliminando a figura do autor e diluindo a autoria, enquanto tal. O que espero é que eles me paguem pelas minhas obras que disponibilizam no streaming, porque cobram por elas. Quero a minha parte.

Em tempo

As questões levantadas por Marcílio Moraes nesta entrevista quanto às plataformas de streaming são esmiuçadas no site da GEDAR, Gestão de Direitos de Autores Roteiristas, disponível aqui. Outras informações podem ser encontradas na transcrição de uma palestra de Marcílio sobre direitos autorais, realizada recentemente, disponível aqui.