Elizabeth Savalla fala de fama: ‘Nunca preocupei com essa coisa de glamour por ser artista’

Elizabeth Savalla tem 46 anos de Globo e mais de 30 produções. Essa semana, ela estreou em ‘Quanto Mais Vida, Melhor’ e atriz vive um expectativa diferente de tudo que já viveu na vida: estrear com uma novela totalmente gravada. A trama do autor Mauro Wilson, por sinal, ganhou elogios da veterana. “É uma história muito gostosa. Esse autor, o Mauro Wilson é bem interessante. Ele escreve uma cena de comédia e de repente, essa cena dá uma virada fica séria. `´É muito dinâmico, estimulante”, conta.

Em entrevista exclusiva para a coluna, Elizabeth fala do início da carreira, das mocinhas, da loucura que era o assédio, de gostar de política e de não se deslumbrar com a carreira de atriz. Conta que adora lavar roupas, odeia falta de respeito e falta de amor ao próximo e que sempre lutou pela democracia. “A minha juventude viveu em plena ditadura militar e eu sei muito bem o que é ser cerceada, não ter liberdade e saber o que é censura”, pontua. Com vocês, Elizabeth Savalla.

O que te motivou a escolher a profissão de atriz?
Vixe, mãe do céu! Desde que eu me conheço por gente, eu queria ser atriz. Eu era péssima aluna na escola, tinha uns sete anos de idade e as crianças da minha turma já sabiam ler, escrever e eu não. Mas, depois, eu aprendi a ler muito rápido e sozinha. Foi através da leitura que eu viajava, viajava e conhecia lugares incríveis. Eu tinha uma professora, a minha primeira professora, que me incentivava muito e ela percebeu a minha aptidão. Os primeiros da turma ganhavam medalhas e os outros não, mas eu chamava atenção com meu jeito expansivo e ela me incentiva. Passei a ser chamada para ficar lá na frente também e eu gostei disso (risos). Percebi que eu podia emocionar as pessoas, percebi que as pessoas prestavam a atenção em mim. Percebi que podia me dar bem e emocionar as pessoas. Fui avançando no colégio, fazendo apresentações, fazendo teatro e mais tarde, quando eu entrei na Escola de Arte Dramática, as coisas foram acontecendo naturalmente. Não tive muitas dificuldades de arrumar emprego, do tipo ficar batendo nas portas, por exemplo. As coisas foram acontecendo e, graças a Deus, vieram com facilidade.

Em algum momento pensou em fazer outra coisa, mudar de profissão?
Todos os dias (risos). Todos os dias quando começo uma nova novela, quando tenho um personagem novo e quando tenho uma cena muito difícil. Nessas horas, eu fico pensando: ‘por que eu não fui ser médica, engenheira, professora, química ou biológa. Bem feito pra mim, né? Escolhi essa profissão e tenho que me virar (risos). Eu também tive a sorte de ter encontrado grandes diretores no meu caminho, como Walter Avancini, o meu primeiro diretor, Daniel Filho, Roberto Talma e tantos outros. A Globo também tem uma coisa muito bacana, que são os preparadores de elenco. Nesta novela, ‘Quanto Mais Vida, Melhor’, por exemplo, nós tivemos esse acompanhamento e é muito bom se sentir abraçada porqye vai te tirando daquela zona de conforto, É importante para o ator ter esse olhar cuidadoso, sabe?.

Os atores costumam dizer que todos os personagens são amados igualmente, mas você não tem uma ou duas personagens em um cantinho de destaque no seu coração?
Eu tenhi várias. São mais de 30 produções e a primeira é sempre especial. É igual o primeiro sutiã, a gente nunca esquece (risos). Ela é Malvina da novela ‘Gabriela’ (1975). Era uma personagem rebelde, revolucionária e foi muito importante fazê-la naquele momento. Depois, eu tive a Lili de ‘O Astro’ (1977), a Carina de ‘Pai Herói’ (1979), duas composições completamente diferentes. Tem também a Márcia, a ex-chacrete Tetê Para-Choque de ‘Amor à Vida’, (2013). Ela marca a minha maturidade. Ai… eu gosto de tantas… que pecado! Gosto de Jezebel de ‘Chocolate com Pimenta’ (2003), um sucesso até os dias de hoje com as reprises e tem a Mariana do filme ‘Pra Frente Brasil’ (1982), que fala sobre a ditadura. Foi importante estar naquele filme, naquele momento. Na verdade, cada personagem é importante para um artista, marca e representa um momento da sua vida.

Tem algum personagem que foi feito por outro ator e você gostaria de ter feito?
Ainda não foi escrito, mas eu quero fazer.

Depois de ‘O Astro’, você emendou várias mocinhas do horário nobre da Globo. O que lembra dessa época? Tinha muito assédio? Sentia que rolava algum tipo de ciúme por parte de outros atores por ter prestígio entre os autores e diretores?
Olha, eu não sei se algum ator tinha ciúme e se tinha ninguém falava. Pelo contrário. Eu sempre me senti muito acarinhada com quem eu trabalhei e trabalho. Dessa época de ‘O Astro’, eu lembro do reencontro da minha personagem Lili com o Márcio Hayala, de Tony Ramos. Nós não éramos os protagonistas, mas a cena do reencontro deu 98% do ibope. Bateu a audiência de um jogo de futebol do Brasil com a Inglaterra! No dia seguinte, foi enterro da minha sogra, mulher do meu primeiro marido (Marcelo Picchi) e eu tive que sair fugida do cemitério porque todo mundo queria ver a Lili. Foi horrível. Em ‘Pai Herói’ foi a mesma coisa. Eu tive que andar com seguranças em Portugal, por exemplo, quando a novela passou lá. Quando ‘Gabriela’ passou lá também foi outra loucura ! Cheguei a andar de carro aberto e dar tchauzinho para as pessoas nas ruas. Para mim tudo era muito inusitado porque eu era nova demais, mas eu nunca deixei de fazer as coisas, do tipo fazer compras em supermercados ou levar os filhos na escola. Nunca tive medo de sair às ruas, nunca tive medo de nada. Aliás, medo em qualquer situação é ruim porque não te ajuda em nada. Acho que o ator é o porta-voz do anseio do povo, da comunidade e sociedade e se você se afasta das pessoas, não participa das coisas dessa sociedade, você fica muito aquém. Como você vai representar um personagem dessa sociedade? Nunca me afastei do público, nunca me preocupei com essa coisa de glamour por ser um artista. Agora mesmo, eu tomei a terceira dose da vacina da Covid-19 e tinha uma fila quilométrica. Fiquei esperando horas, as pessoas me reconheceram, conversaram, tiraram fotos e foi tudo ótimo.

Como está a sua expectativa com relação o retorno das novelas inéditas? E como é gravar sem o feedback do público que você sempre teve?
É uma loucura. A gente está passando por um momento tão maluco e eu nunca imaginei fazer novelas que são obras abertas de uma maneira fechada. Os autores escrevem os capítulos e os diretores autores assistem os capítulos que foram ao ar, assim como os atores e cada um vai fazendo a sua parte. Mas, às vezes não dá certo. O casal não tem a química esperada, por exemplo, e em uma obra aberta existe a possibilidade de consertar. Isso não acontece quando ela é fechada. Não deu certo, segue. Outro dia um câmera falou uma coisa que é como se fosse uma estreia todos os dias e é assim mesmo que eu me sinto com uma expectativa de estreia diária. É muito diferente.

E a novela ‘Quanto Mais Vida, Melhor’, como é?
É uma história muito gostosa. Esse autor, o Mauro Wilson é bem interessante.Ele escreve uma cena de comédia e de repente, essa cena dá uma virada fica séria. `´É muito dinâmico, estimulante. Tem também uma equipe fantástica de diretores, produção incrível e o elenco integrado. Todo mundo de máscara, que nós atores só tiramos quando o diretor fala ‘gravando’, e fazendo diariamente o PCR (risos). Existe a expectativa da estreia e os primeiros dias com o todo corpo fechado e, essa principalmente. Só Deus na causa!

E a Nedda?
Nedda é aquele tipo de mãezona, mãezona italiana e é uma mulher que exala sensualidade. Foi muito apaixonada pelo primeiro marido, o Edson, de Stepan Nercessian, e os dois tiveram dois filhos: o Neném, personagem do Vladmir Bricht, que foi jogador de futebol do Flamengo e camisa 10 da seleção brasileira, que perdeu tudo por causa de farra, e o Roni, do Felipe Abib, que começa a novela preso. Ela sofre muito por causa desse rapaz. Na casa dela vivem outros personagens como as duas ex-mulheres do Neném, as filhas dos respectivos casamento e o Osvaldo, interpretado por Marcos Caruso. Nedda é uma mulher que agrega todo mundo, quer todo mundo perto, o centro dessa família. Devota de São Judas Tadeu, cozinha bem, corta cabelo e uma mulher com muita força. Ela é incrível.

O que te tira do sério?
Falta de respeito e falta de amor ao próximo. Também não gosto de ver alguém injustiçado na minha frente. Quando isso acontece é difícil de me segurar .

Você acha que a classe artística, hoje, é mais atuante nos problemas da categoria e até mesmo politicamente? Você sempre se posicionou? Já teve problemas com isso?
Não dá para agradar a gregos e troianos. Nem Jesus Cristo agradou todo mundo. Eu sempre fui a favor da democracia. A minha juventude viveu em plena ditadura militar e eu sei muito bem o que é ser cerceada, não ter liberdade e saber o que é censura. Lutei pelas Diretas Já, fiz campanha para o Ulisses Guimarães para presidente em 1989, um dos grandes estadistas brasileiros, na minha opinião, e eu sempre lutei pelas pessoas que eu acreditava e acredito. Hoje, eu vejo a classe muito atacada porque o atual governo não gosta de artistas. Mas, ele também não gosta do meio ambiente, não gosta de índios e tem problemas com as mulheres, os gays e os negros. É uma pessoa que precisa ser analisada. Na verdade, eu acho que ele faz tudo isso para empanar a incompetência no gerir, no gerenciar e apandemia do coronavírus mostrou essa falta de competência. Ele negando a pandemia foi pior ainda. Enfim. São poucas as pessoas que podem ser um estadista de verdade.

Mas, você tem alguma preocupação em se posicionar?
Não. É claro que quando você coloca alguma coisa que não agrade algumas pessoas, você perde seguidores, mas eu confesso que não falo porque não vale a pena. As pessoas não mudam e vão continuar acreditando em quem elas acreditam. Quem não acredita vai continuar lutando e eu continuo lutando até morrer. Eu achei quando nós tivéssemos a democracia, tê-la pela primeira vez, aquela coisa conquistada e aí nós iriamos mais pra frente e lutar pelo social. Mas, não. A democracia é preciso cuidar todos os dias e ser vigiada.

Vi alguns vídeos em suas redes sociais, você ensinando a fazer receitas culinárias e até de como tirar manchas de roupas. O que você faz que ninguém desconfia?
Como a gente está sempre trabalhando muito e passa a vida inteira trabalhando, eu gosto de brincar de casinha.Gosto muito e na pandemia, eu fiz bastante isso: brincar de casinha. Eu adoro lavar roupas! Quando eu estou mal, um tanque de lavar roupas, me alivia de problemas, das angústias e da depressão. Quanto mais mal eu fico, mais roupas eu lavo.

Lenda que SABE ATUAR

1 curtida

que savalluda

hoje é o oposto. qualquer um pode ser ator/atriz.