ESTREIA DA TEMPORADA: Anos Incríveis: Remake é fusão entre série original e Todo Mundo Odeia o Chris

Uma das séries mais icônicas das décadas de 1980 e 1990, Anos Incríveis (1988-1993) ganhou uma nova versão quase 30 anos depois de seu fim. The Wonder Years, que leva o mesmo título da original, é uma das principais estreias da temporada 2021/2022 da rede ABC, dos Estados Unidos, e convence ao parecer uma fusão entre a atração clássica e Todo Mundo Odeia o Chris (2005-2009).

A principal semelhança, claro, está na formação do elenco. Diferentemente da série original, protagonizada por atores brancos, o remake coloca no centro da trama uma família negra. Ao atingir um equilíbrio quase perfeito entre humor e drama, Anos Incríveis muitas vezes consegue chegar no tom que se popularizou na produção inspirada na vida do comediante Chris Rock.

Anos Incríveis, no entanto, não se baseia na vida de uma pessoa só. Situada em 1968, a trama retrata um período que marcou diretamente a vida e toda a população negra dos Estados Unidos.

Naquela época, o país enfrentava revoltas em vários Estados ocasionadas por questões raciais e pela Guerra do Vietnã (1959-1975). Artistas negros lutavam por seu espaço na indústria, e o discurso por mais igualdade sociais começava a se intensificar no debate popular.

No meio disso tudo, a série apresenta Dean Williams (Elisha Williams), um garoto negro de 12 anos que reside em Montgomery, no sul dos EUA, e que tem como únicas preocupações tirar boas notas, treinar beisebol e conquistar a garota dos seus sonhos. É ele quem assume o lugar de Kevin Arnold (Fred Savage), o garoto que brilhou na versão original.

Assim como Kevin tinha a família Arnold ao seu lado, Dean não está sozinho para encarar a sua juventude. O protagonista mora com seu pai, Bill (Dulé Hill), músico que também vive como professor; sua mãe, Lillian (Saycon Sengbloh); e Kim (Laura Kariuki), sua rebelde irmã mais velha. O primogênito dos Williams, Bruce, está fora do país lutando no conflito com o Vietnã.

Mudar o protagonismo para uma família negra foi uma escolha acertada: permite que o criador e showrunner Saladin Patterson (Psych) e o produtor executivo Lee Daniels (Empire) coloquem os holofotes na turbulência racial dos 1960, que foi pouco foi explorada na série original.

Logo de cara, o remake não foge de sua proposta social. Através de um jogo amistoso de beisebol entre o time de Dean, formado por negros, e a equipe de seu amigo Brad (Julian Lerner), só com jogadores brancos, o episódio piloto mostra que Anos Incríveis manterá a questão social no centro da narrativa.

Mas o protagonista da história é Dean, o que transforma algo que seria facilmente um drama intenso em algo mais leve. Do alto de seus 12 anos, ele não enxerga problemas --quer apenas se divertir. Nem uma tragédia histórica apresentada nos instantes finais, a ser explorada no segundo episódio, torna a história do caçula Williams algo triste de se assistir. Muito pelo contrário.

A dinâmica familiar e a timing cômico do remake também se assemelham aos utilizados em Todo Mundo Odeia o Chris. Claro que os pais de Dean são menos espalhafatosos do que os icônicos Rochelle (Tichina Arnold) e Darius (Terry Crews), mas o humor da relação deles com o filho é um elemento que pode conquistar os fãs da sitcom dos anos 2000.

O narrador Don Cheadle também foi outra escolha acertada de Anos Incríveis. O encarregado de dar voz à versão adulta de Dean tem o carisma necessário para contar as experiências do protagonista e a sua descoberta como pessoa.

Retornar a um período já visitado, mas sob nova perspectiva, pode ser o gás necessário para que o remake trilhe um caminho de sucesso como a sua contraparte. Anos Incríveis começou a sua jornada com muitos mais acertos do que erros, e seu formato leve pode ser capaz de conquistar tanto os fãs antigos quanto uma nova geração.

Assista ao trailer (sem legendas) da nova Anos Incríveis: