Famílias pobres de Cuiabá fazem fila para conseguir doações de restos de ossos de boi

Famílias pobres narram a peregrinação em estabelecimentos comerciais da cidade para tentar levar comida para casa

Mara Siqueira, 35, costuma acordar por volta de 5h30 para dar início a uma peregrinação em busca de doações para alimentar os sete filhos.

Três vezes na semana, ela é uma das dezenas de pessoas que se enfileiram em frente a um açougue no bairro CPA 2, na periferia de Cuiabá, para tentar levar para casa pedaços de ossos doados ali.

Trata-se dos restos do processo de desossa do boi. Nesses pequenos pedaços, ficam resquícios de carne, que se tornam prato principal na casa de cuiabanos em situação de vulnerabilidade financeira e insegurança alimentar.

A distribuição dos ossos começa às 11h, às segundas, quartas e sextas. Na manhã de quarta (14), a reportagem esteve no local. Moradores do entorno diziam ter chegado com duas horas de antecedência.

Mara mora no bairro Planalto, a mais de 3 km do açougue Atacadão da Carne. Ela aguardava no local com três vizinhas. Todas têm filhos e afirmam que não podem se dar ao luxo de deixar de ir ao estabelecimento, já que isso significaria não ter o que comer em casa.

“Acordo às 5h30 e começo a andar. Conseguimos os ossinhos aqui e algumas verduras que iriam para o lixo em outros mercados. Muitas vezes, ainda somos xingadas [por donos de lugares onde pedimos doações]. Mas fazer o quê? Preciso levar comida para casa”, disse Mara, desempregada.

Elen Cristina de Souza, 17, é parceira de Mara na fila.

Ao lado dela, o filho, em um carrinho de bebê, parece atento ao que está acontecendo. A jovem afirma que o ossinho é parte da maioria das refeições na casa dela. Misturamos com tudo, mandioca, abóbora, [comemos] puro. Só não comemos cru mesmo", explica Elen, também desempregada.

Sentadas na calçada, onde mais de 50 pessoas tentavam desviar do sol quente do meio-dia em Cuiabá, Renildes Pereira da Silva, 53, e Ana Maria de Jesus Araújo, 39, estavam no início da fila.

Renildes diz que há muito tempo a carne grudada nos ossos é a única que ela tem condições de comer. Fazendo anotações em um caderno, fala que está mais difícil sobreviver sendo pobre no Brasil.

Ela mora com uma neta e com dois filhos, que fazem bico como ajudantes de pedreiro, no bairro Primeiro de Março, perto do CPA 2. Diz não saber ao certo qual a renda da família. “Abaixo de R$ 1.500. Para pagar água, luz, que também está muito cara, aluguel. Depois ainda vem o gás. Quando não tem dinheiro para comprar, nós cozinhamos com lenha mesmo”, diz Renildes.

Para Ana Maria, que está desempregada e vive com R$ 375 do auxílio emergencial, a fila de moradores em busca de ossos é um reflexo da situação econômica do Brasil.

“Tenho muito medo de piorar mais. Não gosto nem de pensar nisso. Deus não vai deixar acontecer. Antes as coisas eram melhores, depois que tirou o Lula, a coisa ficou pior. [Antes] conseguíamos comprar comida, tinha emprego”, afirma, fazendo referência ao ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva (PT).

Luciano André Barros Alves, 45, já teve vários empregos, de vigilante a churrasqueiro, mas ultimamente tem tido dificuldade até para conseguir pequenos bicos. A mulher dele também está desempregada desde que teve um problema de saúde.

A fome chegou à casa de Luciano, a mulher e os três filhos, no bairro Três Lagoas, e há sete semanas ele marca presença na fila para conseguir pegar um pouco dos ossinhos.

"Faço bico as vezes. Consigo R$ 50, não dá para nada. Se não fosse esse açougue, esse pessoal todo aqui na fila não teria o que comer. Tem muitos com cinco, seis filhos, é difícil ", diz.

Ele também recebe doações de frutas e verduras de outros estabelecimentos na região.

“Dão mandioca, batata. O que for, nós aceitamos. Essa fila ainda vai crescer mais ainda. Antes, nós conseguíamos comprar carne. Fico triste, porque não gosto de ver meus filhos tristes. Saio para conseguir doações para termos o que comer, quero ver meus filhos saudáveis”, diz Luciano Alves.

Funcionários do Atacadão da Carne informam que há mais de dez anos as doações de ossos são realizadas para os moradores sem renda da região, mas dizem que a fila aumentou nos últimos tempos. Por dia, são quase 500 kg e eles garantem que sempre “dão um jeito” para que ninguém volte para casa sem um pouco de proteína.

Açougues da região, que vendem o produto, cobram até R$ 10 o kg. Para Maurício Munhoz, professor de economia da Unemat (Universidade do Estado de Mato Grosso), a fila de moradores em busca de ossos escancara a contradição de um estado que é referência no agronegócio e na criação de gado.

“Mato Grosso tem o maior rebanho bovino do país, com cerca de 32 milhões de cabeças de gado. São aproximadamente dez cabeças de boi por habitante. Seria lógico que pelo menos o preço da carne fosse barato aqui, mas acontece o contrário”, diz.

Com o dólar alto, explica, frigoríficos preferem exportar a carne a vender no mercado interno, para ganhar mais. “Poucos grupos detêm o poder no mercado de carne no Mato Grosso. São cerca de 25 frigoríficos, que pertencem a de oito a dez grupos. Ficamos [a população] como segunda opção”, afirma.

Que triste mds :sob:

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Isso acabou comigo agora.

como pode um bols*minion se deparar com uma situação dessas todos os dias ultimamente e achar que está melhor assim do que antes bicho…

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ai gente é tão triste isso esse açougue é aqui perto de casa e a fila é enorme, as vezes começam a doar tipo meio dia e o sol ta muito quente.

Eles ainda distribui os ossos, tem local que faz é vender.

Meu Deus que tristeza

A maioria tá bem pq não foi afetado. Aí olha pra pessoas nessa situação e pensam que elas só estão assim pq querem ou pq são vagabundas, não se esforçaram e deram duro na vida.
Convivo muito com bolsominion que pensa assim. É de vomitar

de que estrato social elas são? eu conheço ex-eleitores do bolsty que estão há um bom tempo arrependidos… não sei se todos esse estardalhaço dele nas redes vai se refletir nas urnas em 2022 porque ele não sustentou nada do que prometeu para as classes mais baixas e o aumento da miséria está nítido

Gente que tristeza.

Brazuela cada vez mais real?

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lula por deus vem logo

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Que tristeza

tem trabalho voluntario em Sinop
Pesquisem e facam algo q preste bixas

Classe média. É a galera que não foi tão afetada pela crise (ainda) e que vê nessas discrepâncias sociais absurdas um sinal divino, de que Deus cuida da vida deles. Sim, classe média, bolsonarista, evangélica. O suco do suco

lamento por você
é aquela coisa né, enquanto a água não bate na bunda…

Mas tem muita gente desse jeito, se a ainda não afetou ela então tá tudo bem…

Mas eu acho que nem assim… é um tipo de povo que se alimenta de ódio. Enquanto tiver Bolsonaro dando aval pra eles serem preconceituosos, tá tudo bem.
O mal do mundo é gay migo. Não gente fazendo fila pra “doação” de ossos.

que buraco sem fundo nós caímos, meus caros…

Mais uma Vitória da era Paulo jegues

Que tristeza