Filho do dono da SPFW sofre racismo em Salvador ao ser confundido com um bandido e apanha no banheiro; Pai sofreu homofobia na escola

Tudo isso, porém, não o blindou de episódios de racismo. Ele não sabe dizer quantas vezes foi parado nas ruas de São Paulo pela polícia, para ser revistado, ou foi monitorado por seguranças em supermercados e farmácias. Até na escola bilíngue onde estudou a maior parte do tempo, em Alphaville, na Grande São Paulo, o racismo não deixou de atuar. Henrique foi chamado várias vezes à sala da diretoria para comentar sobre alguma baderna da qual ele sequer tinha conhecimento. “Alguns alunos jogavam tudo nas minhas costas e todos acreditavam neles. Daí, quando eu sofria racismo e procurava os professores, eles diziam que tudo não passava de brincadeira”, conta Henrique. O pai comenta: “Meu filho nem sempre se queixava para mim no dia em que sofria episódios racistas, eu só ia saber tempos depois, quando ele resolvia se abrir de forma natural.”

Aos 16 anos, quando as aulas presenciais foram retomadas depois da pandemia, Henrique enfrentou problemas de concentração nas atividades escolares e estava com as notas ruins. Era certo que seria reprovado no segundo ano do ensino médio. Um dia, em protesto pela situação, ele deixou o material escolar em casa e foi para o colégio levando apenas uma almofada. O diretor o chamou em sua sala. Henrique conta que ouviu dele a seguinte frase: “Você tem problemas.” O rapaz quis saber quais. Segundo Henrique, o diretor disse: “Você é negro em uma escola onde só tem alunos brancos, o seu pai é gay em uma sociedade machista e heterossexual, e você não tem mãe, por isso está agindo dessa forma. Eu bolei um plano e vou ter uma conversa com o seu pai, para colocar você em um lugar para se tratar.”

m férias em Salvador, o estudante de artes dramáticas Henrique Borges, de 20 anos, e a namorada, a estudante de direito Luiza Escobar, também de 20 anos, decidiram fazer um programa em família no domingo, dia 11 de janeiro. Eles se reuniram ao pai e ao padrasto de Henrique – o empresário Paulo Borges, criador da São Paulo Fashion Week, e o modelo Fernando Schnerocke – para uma noitada de samba e axé no Candyall Guetho Square, a casa de shows de Carlinhos Brown. Por volta de sete da noite, a convite do cantor, todos se instalaram na área VIP, dividida em dois andares, com uma vista privilegiada para o palco. O clima era de alegria e descontração.

Cerca de uma hora depois, Luiza mostrou ao namorado alguns recipientes cheios de bebida no chão, perto de onde os dois estavam. Os frascos pareciam cortesias do camarote, que é patrocinado por marcas de cerveja e de destilados. “Amor, tem Red Bull. Pega um para mim, por favor”, disse Luiza a Henrique. Quando ele se curvou para pegar uma lata, tomou um empurrão forte. “Seu ladrão, seu vagabundo. É seu? É seu?”, gritou um homem com idade para ser pai de Henrique.

O rapaz pediu desculpas e explicou que achava serem bebidas gratuitas à disposição dos convidados. O homem de porte atlético seguiu gritando – “Ladrão, vagabundo!” –, enquanto todos em volta olhavam, espantados, e a mulher dele pedia que ele se acalmasse.

Henrique e Luiza acharam melhor ir para o segundo andar da área VIP, mas a sensação de mal-estar com o que acontecera permaneceu. “Eu estava muito tenso”, ele recorda. Como não havia mais clima de diversão para eles naquele lugar, resolveram ir embora. Os dois desceram ao primeiro andar novamente, para que Luiza avisasse a Paulo Borges da partida. Enquanto isso, o jovem foi ao banheiro. Quando saía dali, a namorada se aproximou correndo e disse para Henrique voltar e ficar lá dentro porque o agressor estava no encalço dele.

No banheiro, quando ainda estava de frente para o mictório, Henrique tomou um soco na região do olho esquerdo e, depois, outro na altura da boca que o fez bater a têmpora direita na parede. Era o mesmo homem que o agredira verbalmente antes e que disse enquanto esmurrava o jovem: “Rouba, agora, seu ladrão. Vagabundo do caralho. Agora você vai aprender.” Um segurança finalmente apareceu e segurou Décio Caribé de Castro Júnior, de 48 anos, professor de karatê.

Henrique saiu às pressas do banheiro, com a boca ensanguentada e os lábios inchados. O pai e o padrasto o esperavam na saída. Os dois não sabiam o que havia acontecido, porque não estavam com o casal de namorados na hora da agressão, mas tinham sido avisados do incidente por Luiza. Paulo Borges entrou no banheiro para ver quem tinha agredido Henrique. Ao deparar com o agressor, disse a ele: “Você bateu no meu filho. Aquele rapaz ensanguentado tem um pai.” O empresário conta que olhou bem dentro do olho do agressor. “Senti que ele me reconheceu, eu me lembro de ele me ver dançando com o Henrique.”

Fernando Schnerocke, o padrasto de Henrique, resolveu permanecer na porta do banheiro. “Só saio daqui quando vier um Policial Militar”, ele disse. Alguém contatou oficiais da PM que estavam na portaria do evento. Enquanto isso, Henrique foi levado por Luiza até uma ambulância na saída da casa de shows (em geral, eventos com trezentas pessoas ou mais contam com ambulância no local).

Alguns policiais militares se aproximaram e perguntaram ao rapaz se queria fazer um boletim de ocorrência. Ele ficou em silêncio. Seu pai pediu, então, que todos saíssem da ambulância. “Você já passou por muita coisa nessa vida e pode decidir o que fazer. Se quer ir à delegacia e brigar por Justiça ou deixar de lado, a escolha é sua”, disse Borges ao filho. Henrique percebeu que aquele seria um momento de virada em sua vida. Daquela vez, decidiu então fazer um B.O.

Um agente da PM disse que Henrique e o professor de karatê teriam de ir juntos na mesma viatura até a 1ª Delegacia Territorial de Salvador. Até aquele momento, os policiais não sabiam quem era a vítima e quem era o agressor. Henrique se recusou a entrar no mesmo veículo que Castro Júnior. Após alguma discussão, a polícia acatou o pedido do jovem, e os dois foram levados até a delegacia em viaturas diferentes. Paulo Borges não foi autorizado a acompanhar o filho no mesmo carro e seguiu em outro veículo.

Por volta das 23h, Henrique começou a prestar depoimento para a delegada Izabel Ciuffo Sento-Sé Reis. Ele disse que pegou a lata de energético em um dispositivo térmico no chão porque achou que era uma cortesia da casa de shows. Contou que, após ter sido chamado de “ladrão, vagabundo” e ter pedido desculpas pelo mal-entendido, foi ao segundo andar da área VIP com a namorada e, vinte minutos depois, resolveu ir embora. Quando estava deixando o local, foi avisado pela namorada que o homem estava vindo na sua direção e se escondeu no banheiro. No b.o, consta que os dois socos atingiram a cavidade ocular e a boca, que “ficaram lesionados”.

Em torno da meia-noite, Castro Júnior prestou depoimento à mesma delegada. Segundo o boletim de ocorrência, afirmou que tinha notado Henrique e Luiza e que eles estavam “com a intenção de subtrair alguma bebida que se encontrava em suas sacolas térmicas”. Confirmou ter dito as seguintes frases a Henrique: “Isso é seu? Você pagou por isso? Rapaz, você é ladrão.” Disse também que as pessoas que estavam no local tiveram a mesma percepção que ele de estarem diante de “um ladrão mesmo”. Mas ele não indicou que pessoas seriam essas. Sobre a agressão física dentro do banheiro, disse ter sido quase uma autodefesa. Ao ver Henrique sair e voltar ao banheiro, ele teve a sensação de que o rapaz queria “roubar mais coisas” e se sentira “ameaçado” com a presença dele. O encontro dentro do banheiro não foi fortuito.

A polícia não quis colher o depoimento de nenhuma testemunha pelo lado de Henrique, como sua namorada ou seu pai. Mas duas semanas depois colheu o de uma testemunha apresentada pelo professor de karatê, o empresário Ricardo Mesquita Guedes, dono de uma academia de tiros e de uma empresa de delivery de bebidas. Guedes afirmou em seu depoimento que houve o furto de um energético. Ele disse ainda que Henrique devolveu o energético, “fugiu no meio do povo” e que todos ao redor chegaram à mesma conclusão: “Os populares começaram a chamar ele de ladrão.” O amigo relatou não ter visto o que aconteceu no banheiro, mas que o segurança do evento sugeriu que Castro Júnior registrasse um B.O. por furto.

Guedes havia acompanhado o professor de karatê à delegacia na noite da agressão. Paulo Borges contou que o empresário – que é também presidente da Sociedade de Amigos da Força Aérea Brasileira – circulou pela delegacia à vontade: “Ele conversava e dava risada com os policiais, demonstrando conhecê-los e ter intimidade com eles.” Chegou a debochar do professor de karatê, seu amigo, de frente para Borges. “Viu só? Ele nem é bom lutador. Se fosse eu, o pivete não teria conseguido se levantar do chão.” Houve um começo de discussão, até que a polícia ameaçou prender todo mundo. “Esse homem tinha tamanha certeza de impunidade que nos provocava e agredia com palavras”, diz Borges. “O meu filho estava ensanguentado, e mesmo assim era pouco.”

Borges faz outra observação sobre aquele domingo de noite na delegacia: “95% das pessoas que chegavam algemadas eram pretas ou eram mães chorando, desesperadas, em busca de informações sobre os seus filhos.” Guedes, futura testemunha de Castro Júnior, ao ver os jovens pretos saindo algemados de dentro de viaturas, provocou mais uma vez o pai de Henrique: “Esses pivetes sempre chegam aqui dizendo que não foi nada, né?” Falava em voz alta, como se estivesse diante de uma plateia, para que todos o escutassem.

Ao final de seu depoimento, Henrique recebeu um encaminhamento para realizar exame de corpo de delito no Instituto Médico Legal, para onde foi em seguida. Lá, foi informado que o local estava sem funcionários suficientes para todos os atendimentos naquele domingo e o orientaram a ir a um hospital particular. Henrique seguiu então para o Mater Dei. No encaminhamento feito pelo IML constava hematoma no globo ocular esquerdo, edema no terço médio da face e trauma de face. Na delegacia, a agressão foi registrada como um caso de lesão corporal. A palavra racismo não consta no B.O. feito por Henrique Borges.

É comum vítimas de racismo e de assédios em geral se darem conta da dimensão do caso tempos depois. Existem duas razões para isso: a dissociação do trauma, em que a pessoa não processa a gravidade do que aconteceu na hora do ato, e a negação como mecanismo de autodefesa, quando a vítima ameniza o ataque do agressor para evitar uma dose maior de sofrimento imediato. Henrique, logo após ter sido empurrado, se culpabilizou por ter pensado que a lata de energético era uma cortesia do camarote.

A palavra também não aparece nos depoimentos, no B.O, de Décio Caribé de Castro Júnior, de 48 anos, e Ricardo Mesquita Guedes, de 50 anos.

Henrique começou a bater boca com o diretor. “A minha doença é ser negro? Não tenho que me tratar de nada”, ele disse. O adolescente deixou a sala do diretor e foi direto para casa. O diretor então ligou para Borges, repetindo o mesmo discurso: o jovem precisava de tratamento psicológico para poder conviver em sociedade por ser negro, adotivo e não ter mãe. Borges ficou boquiaberto ao ouvir as explicações do educador e decidiu mudar seu filho de escola. Pensou em ir além e processar o colégio, mas Henrique pediu ao pai que não o fizesse.

4 curtidas

tô horrorizada :skull_and_crossbones::skull_and_crossbones::skull_and_crossbones: merda de planeta

Acho que a história da escola é mais pesada.

tudo uma merda, tudo crime

NOJO

1 curtida

Gente?

Não sei qual pior… a história da escola ou esse episódio em Salvador.

O que uma pessoa em área VIP que tem acesso tudo iria roubar um energético?

O racismo escancarado.