Como todo noveleiro sabe, o último capítulo não é o melhor termômetro para avaliar uma novela. “Dona de Mim” terminou na sexta-feira (9) apenas entregando o esperado: o casamento de Leona (Clara Moneke) e Samuel (Juan Paiva), a prisão de Jaques (Marcello Novaes) e o final feliz de todos os personagens bons.
O mais importante é avaliar a trama como um todo, neste caso em seus mais de 200 capítulos. E o saldo é mais que positivo: depois de “Vai na Fé”, a autora Rosane Svartman acertou mais uma vez com sua receita que mistura melodrama clássico, pautas atuais e inclusivas e um olhar atento às questões femininas.
Dentro desse universo “svartiano”, a primeira boa escolha foi promover a protagonista a grande atriz-revelação de “Vai na Fé”, Clara Moneke. Junto com Duda Santos, a estrela de “Garota do Momento”, elas são dois dos talentos mais promissores na Globo hoje. Como a cuidadora Leona, que se apaixona pela (inicialmente) órfã Sofia (Elis Cabral) ao cuidar dela, Clara mostrou que tem estrela suficiente para comandar esta e muitas outras novelas, mandando bem tanto no registro cômico como dramático.
O desfecho do grande vilão deixou um pouco a desejar. Exatamente como já tinha feito em “Vai na Fé”, Svartman reservou ao final uma grande última loucura de Jaques: invadir o grande desfile da Boaz de arma na mão. Ao menos sua ex-parceira Tânia (Aline Borges) terminou em grande estilo paquerando outro brasileiro “com cara de cilada” nas ilhas Seychelles –calma, a gravação deve ter sido em Angra mesmo.
Tony Ramos, a grande estrela da novela até a metade, quando morre num inesperado acidente, achou que ia finalmente descansar em casa. Mas trabalhou até o final, fosse em lembranças de diversos personagens ou em visões providenciais. Só nesta semana, ele ajudou a salvar Sofia do incêndio na Boaz e apareceu numa lembrança de Samuel em que ensinava a dar nó de gravata. Foi um jeito esperto de manter o brilho de Tony na trama até o final.
Outra grande sacada de “Dona de Mim” foi a construção dos vilões menores, pequenos golpistas que estavam longe da escala 10 de maldade. Começou com Vanderson (Armando Babaioff) e seguiu com Ellen (Camila Pitanga), a mãe de Sofia que não estava morta, e sim aplicando golpes ao lado de Hudson (Emilio Dantas). O reencontro de Ellen e Sofia no bosque próximo ao casamento, em que a menina finalmente entende ter duas mães, uma biológica e outra afetiva, fechou em círculo a cena que vimos lá no primeiro capítulo.
E como texto bom rende boas performances de muitos atores, não dá pra terminar esse texto sem lembrar do excelente trabalho de Suely Franco, Claudia Abreu, Giovanna Lancelotti e da menina Elis Cabral como Sofia. Sim, Humberto Morais tem futuro depois de viver o policial Marlon, e o rapper L7nnon também não fez feio em sua estreia. Mas “Dona de Mim”, como o próprio nome já sugeria, foi acima de tudo uma novela feita para as mulheres brilharem.
