Michael Gomes fala de Nos Tempos do Imperador, Televisão, Racismo, vida na comunidade e diz: 'A bala acha sempre o corpo preto'

Nascido em Padre Miguel, na zona oeste do Rio, Michel Gomes estreou no ofício de ator com o pé direito. Aos 12 anos, ele interpretou o Bené, parceiro de crime de Zé Pequeno (Leandro Firmino) em ‘Cidade de Deus’. Hoje, aos 32 anos, ele desponta em ‘Nos Tempos do Imperador’, na pele de Jorge/Samuel. Ex-cativo do engenho de Ambrósio Rocha (Roberto Bomfim), Samuel se juntou ao grupo dos malês e invadiu a fazenda de onde foi vendido para tentar encontrar sua irmã. Acusado injustamente de ter matado o coronel Ambrósio – que é seu pai biológico - , ele teve que mudar de identidade. Na entrevista a seguir, Michel fala da novela, da vida na comunidade, racismo e dos negros na TV: “O mercado é difícil e vai continuar sendo”.

Você começou a fazer teatro aos 14 anos. O que te levou a escolher o caminho da arte? Você começou no cinema, fazendo o Bené, parceiro de crimes de Zé Pequeno, em ‘Cidade de Deus’. Como você foi descoberto?
Comecei no teatro aos 10 anos, em Padre Miguel, Vila Vintém, através da indicação de um amigo que soube que o teatro estava começando por lá. Por incrível que pareça, foi nessa época que Fernando Meireles estava procurando atores desconhecidos para o filme ‘Cidade de Deus’. Tive meu primeiro contato com cinema aos 12 anos, com esse filme, sem nem ter experiência. Eles estavam atrás de atores desconhecidos e que provavelmente tivessem uma realidade próxima do filme.

Você morava em uma comunidade de Padre Miguel, Acha que por isso foi mais difícil chegar à TV?
Sem dúvida nenhuma. Muito difícil, pela falta de oportunidades, possibilidades. Eu fazia teatro numa comunidade e era difícil saber como abrir portas para poder iniciar. A consequência disso é a necessidade de muito esforço, muito trabalho. Trabalhar dobrado, literalmente. Minha ideia sempre foi conseguir viver da minha profissão e a televisão foi consequência, as coisas foram acontecendo. Mas é muito difícil, principalmente pra alguém que vem de onde vim.

Apesar do sucesso de ‘Cidade de Deus’, você ficou conhecido depois de protagonizar o filme ‘Última Parada: 174’. Conta pra a gente essa experiência?
Em ‘Cidade de Deus’ tive a oportunidade de, na minha opinião, fazer um dos maiores filmes do cinema brasileiro, que sem dúvida nenhuma abriu portas que não se fecharam até hoje. Mesmo tendo pouquíssima experiência, fui muito feliz fazendo esse filme e foi onde descobri meu dom e o que eu queria levar pra vida. Me fez ter amor à primeira vista pelo audiovisual. A batalha continuou, continuei fazendo filmes e séries e o ‘174’ foi meu primeiro grande trabalho de destaque. Aquele trabalho que de alguma forma carimba a trajetória. Foi um filme que mudou minha vida pra melhor. Trabalhei muito, foquei muito, era um filme complexo e difícil de ser feito. O Bruno Barreto confiou 100% na gente, foi uma experiência única, um filme pesadíssimo e eu estava no auge dos meus 18 anos. Tenho um amor enorme pra sempre por esse filme.

O mercado para o ator negro ainda é muito nichado?
O mercado é difícil e vai continuar sendo. Acho que quem vai usufruir da nossa luta diária vai ser a próxima geração, devido a muito trabalho, a realmente fazermos nosso trabalho com tanta dignidade, amor e talento. A gente vem conquistando nosso espaço, mas sabendo que ainda falta muito a fazer. Estamos construindo tijolo por tijolo, abrindo portas e conquistando os objetivos, mesmo sabendo que ainda é muito pouco.

Como foi para você como ator, passar por todo esse período da pandemia?
Foi triste ver tudo acontecendo, tanta gente morrendo. Mantive minha fé, tentando ocupar minha mente comigo mesmo, refletindo, aprendendo com a dor, com a solidão, servindo pra que a gente seja mais amoroso, valorize mais o próximo. Foi um período difícil, principalmente porque moro sozinho. Um momento de muita reflexão, nunca deixando de rezar e torcer para tudo dar certo, melhorar. Serviu para crescer, amadurecer e entender que ninguém é melhor que ninguém.

Você é uma pessoa otimista em relação à questão racial no Brasil?
Sou otimista porque ainda acredito no coração bom, mesmo sabendo que todos os dias o preconceito tá aí.

Muitas pessoas dizem que racismo é mimimi. O que diria para elas?
Fácil falar quando não se mora na favela, quando não invadem sua casa, dão tapa na sua cara, dão tiro. Pra falar sobre isso eu poderia ficar falando sobre 18 anos da minha vida, até eu me tornar uma pessoa pública e como as coisas mudam quando isso acontece. Não existe mimimi, existe racismo, violência, a bala acha sempre o corpo preto. Pelo amor de Deus, estamos vendo isso a todo tempo, passando por isso a todo tempo, pessoas inocentes morrendo na favela. Estamos em 2021 e ainda falando sobre pessoas que acham que é racismo mimimi. Vão morar na favela pra saber como é a realidade e depois venham dizer se é mimimi.

Quais são os projetos em que você está envolvido atualmente?
Estou totalmente envolvido com a novela ‘Nos Tempos do Imperador’. Trabalho nas gravações e quando chego em casa, porque tenho muito texto pra decorar.

Alguma crítica, notícia ou meme já mexeu de verdade contigo? Botou você pra baixo?
Críticas sempre vão existir, sejam positivas ou negativas, temos que analisar e amadurecer. Mas maldade, falta de respeito, é completamente diferente. Ainda não passei por isso.

Como são seus cuidados com o corpo? É vaidoso? Faz dieta e é focado em treinos ou é mais tranquilo e desencanado em relação a isso?
O cuidado que eu tenho é dar minha corridinha, gosto de treinar, correr, fazer musculação de vez em quando. Não faço uma dietFala um pouco de você…
Tenho 32 anos, um filho maravilhoso, uma família incrível, uma base familiar maravilhosa. “Eles” queriam que a gente fosse pro caminho errado, não era nem pra estarmos aqui agora. Mas é isso, sempre contrariando as estatísticas, feliz e realizado.

Apesar de você já ter feito cinema, participações na TV e uma novela juvenil na Record, a exposição de estar num papel de destaque em uma novela da Globo é muito maior. Como é a relação com as pessoas nas ruas? O que elas falam?
Venho de uma preparação desde garoto, trabalho desde criança. Já tinha feito televisão na Globo, fiz uma novela teen e o público nessa faixa etária é diferente, bem intenso. Agora protagonizando a novela a visibilidade é realmente muito maior e na rua só recebo carinho e amor. As pessoas falam que gostam do meu trabalho. Fico feliz com isso porque faz parte do processo e da carreira.

Como está sendo gravar em plena pandemia? Vocês são testados diariamente, né?
Gravar na pandemia exige todo um cuidado, um protocolo seríssimo. Temos segurança do trabalho, da saúde, no set e toda a equipe fica de máscara e com álcool em gel. O elenco só tira a máscara na hora de gravar.

Já tomou a vacina contra a Covid-19? É a favor da vacina?
Claro que sou a favor! Já tomei a primeira dose e torcendo para que essa pandemia acabe, se Deus quiser.

Perdeu alguém próximo para a Covid-19?
Não perdi nenhum parente próximo, mas é tudo muito complicado e delicado, muito triste.

Como você se vê daqui a dez anos?
Espero continuar sendo feliz como eu sou, com as pessoas que eu amo, com os meus. Trabalhando bastante, cada vez mais alcançando meus objetivos e mantendo o foco.