A teledramaturgia da Globo vive, em 2026, um momento paradoxal: nunca foi tão comentada, e talvez nunca tenha sido tão pouco assistida. As novelas atualmente no ar revelam uma crise que vai além de audiência: se trata de identidade narrativa, linguagem e relevância cultural.
A principal vitrine da emissora, a novela das nove, hoje com Três Graças, simboliza bem esse impasse. Apesar de oscilações e alguma recuperação pontual, a trama convive com índices considerados baixos para o padrão histórico do horário.
Mais do que números, o problema é estrutural: há uma sensação de déjà vu. Mesmo com o retorno de um estilo mais clássico, a narrativa parece presa a fórmulas antigas, vilões caricatos, reviravoltas previsíveis e conflitos familiares reciclados. Funciona parcialmente para um público fiel, mas não dialoga com novas gerações.
Se o horário nobre preocupa, a faixa das 19h enfrenta um problema ainda mais evidente com Coração Acelerado. A tentativa de misturar melodrama com universo musical sertanejo não encontrou equilíbrio: a própria Globo precisou reduzir números musicais para tentar salvar a narrativa.
O resultado é uma novela que parece indecisa, ora flerta com espetáculo, ora com drama tradicional, e acaba não sendo plenamente eficaz em nenhum dos dois. A baixa audiência inicial reforça a percepção de desconexão com o público.
Na faixa das seis, produções como A Nobreza do Amor também enfrentam dificuldades para engajar. Historicamente marcada por tramas mais leves e de época, essa faixa hoje sofre com a previsibilidade excessiva e a falta de riscos narrativos.
O resultado é uma dramaturgia confortável, porém pouco memorável, novelas que passam sem deixar marca.
Problema na Globo é o modelo atual
A crise não é apenas das novelas, é do modelo. A fragmentação do público, impulsionada por streaming e redes sociais, reduziu drasticamente o alcance da TV aberta, mas culpar apenas o comportamento do espectador seria simplista.
Há uma dificuldade evidente da Globo em reinventar sua linguagem. Enquanto produções recentes de streaming apostam em narrativas mais ágeis, ambíguas e cinematográficas, muitas novelas ainda operam sob uma lógica dos anos 2000.
O cenário atual revela um dilema: preservar a identidade clássica da novela brasileira ou reformulá-la.
A Globo ainda domina tecnicamente, elenco forte, produção sofisticada, direção competente, mas parece hesitar naquilo que mais importa: inovação narrativa. Sem isso, corre o risco de transformar suas novelas em produtos nostálgicos, relevantes mais pela memória do que pelo impacto atual.
Se as novelas da Globo quiser recuperar protagonismo, a emissora precisará fazer mais do que ajustes pontuais de roteiro ou edição: será necessário repensar o próprio conceito de novela para o público atual. Caso contrário, continuará produzindo histórias que ainda repercutem, mas já não mobilizam como antes.