Eu precisei me despir.
Não só das roupas, mas das camadas que inventaram pra mim. Tirei cada máscara com as próprias mãos, mesmo sabendo que o mundo não gosta de quem aparece cru. E foi assim que eu me mostrei: sem filtro, sem proteção, sem tradução.
Eu sentei no colo do diabo e encarei meus próprios demônios sem piscar. Fui do céu ao inferno tantas vezes que já não sei mais onde começa um e termina o outro. Revirei meu passado como quem abre uma ferida antiga só pra ter certeza de que ainda dói.
E dói.
Dói lembrar que eu sou fruto de uma história que tentaram esconder. Que tentaram negar minha existência antes mesmo de eu entender o que era existir. Dói saber que, desde o começo, o mundo já estava desconfortável comigo.
Mas nada disso parece suficiente.
Porque, no fim, não importa o quanto eu sinta. Não importa o quanto eu mergulhe fundo. O mundo não quer profundidade — ele quer superfície. Eles não querem camadas, querem refrões fáceis. Não querem referências, querem repetição. Não querem sentir, querem dançar.
Eles não gostam quando eu falo demais, quando eu sinto demais, quando eu sou demais.
Eles preferem a minha versão diluída. Mais leve. Mais rasa. Mais aceitável.
E eu tentei… eu juro que tentei caber nesse molde. Mas toda vez que eu diminuo, eu desapareço um pouco.
E eu não nasci pra ser metade.
Eu sou intensidade. Eu sou excesso. Eu sou sentimento transbordando sem pedir licença.
Mas talvez… talvez isso nunca seja suficiente aqui fora.
E é isso que ninguém te conta sobre ser profundo:
Você sente tudo com uma força absurda…
em um mundo que só valoriza o raso.
Com muita dor e nó na garganta, Luisa Gerloff Sonza.