Política alemã discursa fardada e gera desconforto por alusão ao nazismo

O discurso de uma política conservadora gerou incômodo na Alemanha devido a associações, ainda que de forma indireta, ao nazismo. O conteúdo das falas de Claudia Pechstein, 51 —em defesa de medidas mais duras contra a imigração e de um modelo de família que exclui pessoas LGBTQIA+— aliou-se à forma que ela escolheu para divulgar suas ideias: vestida com um uniforme policial durante um evento da CDU, principal sigla conservadora do país e legenda à qual pertencia a ex-primeira-ministra Angela Merkel.

Além de ser policial e ex-candidata ao Parlamento pelo partido de centro-direita, Pechstein foi patinadora de velocidade e é uma das mais conhecidas atletas alemãs dos últimos tempos. Até 2022, ela detinha o recorde de maior medalhista olímpica de jogos de inverno da história da Alemanha, e foi escolhida para carregar a bandeira do país nos Jogos Olímpicos de Inverno de Pequim no mesmo ano.

As falas de Pechstein e principalmente sua decisão de participar de um evento político fardada geraram grande polêmica na Alemanha. O país assiste a uma nova onda de ascensão da extrema direita, e qualquer alusão, por mais sutil que seja, ao passado nazista provoca fortes reações. Há, por exemplo, uma lei que proíbe o uso de uniformes por qualquer tipo de associação política —por outro lado, policiais não são proibidos de usar a farda fora de serviço e têm o direito de se manifestar politicamente.

Pechstein é policial federal desde o fim dos anos 1990, quando entrou na corporação a fim de conseguir patrocínio para sua carreira como patinadora em um sistema parecido com o que leva muitos atletas brasileiros a fazerem parte das Forças Armadas.

Desde que deixou as pistas, Pechstein escreveu uma autobiografia, tornou-se presença frequente na televisão alemã e entrou na política —candidata a deputada federal pela CDU em 2021, não foi eleita.

No sábado (17), ela falou por seis minutos em um congresso do partido em Berlim, um evento que contou com a presença de Friedrich Merz, presidente da sigla e líder da oposição ao governo de Olaf Scholz. A ex-atleta começou a fala pedindo mais investimentos em esporte e atividade física, mas logo passou para temas que mobilizam e polarizam o eleitorado alemão: imigração e direitos de pessoas LGBTQIA+.

“Converso com frequência com meus colegas policiais, e estamos de acordo que é preciso ajudar quem precisa de ajuda. Mas quando as pessoas vêm até aqui, pedem asilo, e um juiz decide que elas não têm esse direito, então não entendo porque elas continuam aqui”, disse Pechstein.

A policial relacionou os imigrantes em situação irregular na Alemanha à criminalidade, reiterando um já clássico discurso das alas que defendem políticas migratórias mais duras. “Resolver esse problema traria mais segurança ao dia a dia das pessoas. Usar o transporte público e precisar olhar para os lados com medo é um problema que afeta a rotina de muitos, principalmente mulheres idosas”.

A fala foi considerada preconceituosa e racista por políticos de esquerda, ativistas e parte da imprensa alemã. O jornal Zeit Online publicou uma análise em que diz que “não é possível saber se uma pessoa está no país ilegalmente apenas ao vê-la no ônibus ou no metrô. O medo do qual se fala, portanto, é destinado a todas as pessoas que são tidas como perigosas por conta da aparência e da cor da pele. Para esse sentimento há uma palavra simples: racismo”.

Pechstein também usou o discurso para defender o conceito de família tradicional, formada por homem e mulher. “Uma família intacta ainda é um exemplo para a maioria dos alemães. As crianças do país enfrentam muitos problemas, e por isso elas querem não apenas um bom emprego, mas uma família tradicional com mãe e pai. A política da CDU precisa acima de tudo se ocupar dessa família tradicional.”

No dia seguinte ao discurso de Pechstein, a Polícia Federal anunciou a abertura de uma investigação do caso, e uma série de membros das forças de segurança repudiaram o uso político da farda.

“Como é possível que uma policial possa aparecer em um evento partidário da CDU de uniforme, para começo de conversa, e ainda disseminar ódio? O Ministério do Interior precisa se explicar”, escreveu Jan Ole Unger, porta-voz do Corpo de Bombeiros de Hamburgo, no Twitter.

O uso da farda por Pechstein levou a comparações com os métodos da extrema direita. “Em dias como este me pergunto se essa é a minha polícia”, escreveu Diana Gläßer, presidente de uma associação que representa policiais LGBTQIA+. “Uma fala populista de direita, racista e LGBTfóbica como essa é uma vergonha para o uniforme. Você representa o passado da nossa polícia, Pechstein!”

Até dentro da CDU houve críticas à fala da ex-atleta. A ala LGBTQIA+ do partido usou seu perfil oficial nas redes sociais para se dirigir a Pechstein e dizer que “todas as crianças têm direito às mesmas oportunidades e direitos, sejam elas criadas em uma família tradicional, por pais solo ou em famílias LGBT. Nós queremos que a CDU seja o partido de todas as crianças e famílias”.

Pechstein se defendeu e disse em uma entrevista ao jornal Bild que “não é filiada à CDU” e que tem “honra de vestir esse uniforme, e o faria de novo”. O presidente do partido, Friedrich Merz, chamou o discurso dela de “brilhante” em um programa de televisão no domingo.

A policial também foi defendida pela AfD, o partido de extrema direita alemão que é considerado fascista pelas outras siglas do país. A deputada federal Beatrix von Storch disse que a “turba midiática de esquerda” ataca Pechstein, e que a investigação “desonrosa” da Polícia Federal contra ela deve ser suspensa imediatamente.

Neta de um ministro das Finanças do regime nazista, Von Storch tem longo histórico de declarações xenofóbicas e anti-imigração. Ela ficou conhecida no Brasil depois de ser recebida pelo então presidente Jair Bolsonaro em Brasília, em 2021.

A Nazista que se encontrou com o Bolsonaro

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