Raphael Montes explica sequência de Bom dia, Verônica, promete ousadia em Beleza fatal, comenta adaptação de Dias perfeitos e novos projetos

No segundo episódio da temporada final de “Bom dia, Verônica”, que chegou à Netflix na última semana, está uma das cenas de mais difícil digestão da série. A sequência brutal, que acontece após um beijo dos vilões Jerônimo (Rodrigo Santoro) e Matias (Reynaldo Gianecchini), foi a preferida de Raphael Montes. O carioca de 33 anos, natural no Méier, Zona Norte do Rio, é a mente por trás desta e de outras histórias sombrias que têm abocanhado espaços na literatura, no streaming e no cinema.

Ao contrário do que apresenta em suas criações, Montes é extrovertido e otimista, como ele mesmo se define. Formado em Direito pela Uerj, começou pelos livros — o primeiro foi “Suicidas”, em 2012. O segundo, “Dias perfeitos” (2014), sobre um psicopata, vai virar série no Globoplay, numa adaptação de Claudia Jouvin. De lá para cá, vieram outros seis, um deles ainda a ser lançado, em março. E o autor já tem ideias para as próximas páginas que escreverá.

Consumidor voraz de novelas desde a infância, Montes sempre bebeu dessa fonte em seu trabalho. Agora, realizará um desejo antigo de estrear como autor solo no gênero. Será em “Beleza fatal”, da HBO Max, cujas gravações estão na reta final.

Enquanto colhe os frutos no presente, ele não perde de vista o futuro: quer escrever novela para a TV aberta e dirigir um filme. Afinal, adorou a experiência como assistente do diretor José Eduardo Belmonte em “Uma família feliz”, longa estrelado por Grazi Massafera e Gianecchini que entrará em cartaz em abril. Na entrevista abaixo, Montes destrincha sua obra e fala da “urgência” de contar mais histórias.

Como surgiu a cena chocante de “Bom dia, Verônica”?

Eu precisava contar a história desses irmãos (Jerônimo e Matias). Tive a ideia de mostrar o que eles sofriam na infância. Então, para mim era muito clara a vontade de ter a cena do beijo. Nas leituras, o Santoro disse que sentia falta de algo entre o beijo e a última coisa que acontece no episódio. E alguém deu a ideia. É a minha cena favorita da temporada e talvez da série. Ela conta muito do passado e da relação entre eles. Visualmente, é impactante. Como autor gay, trazer esse assunto e misturar com violência foi interessante. Era muito possível que a gente se acovardasse numa terceira temporada: “Ah, é só fechar”. Mas queríamos subir um degrau. É uma temporada forte, mas também pertinente, com discussões sobre eugenia e a função da mulher.

De onde vem a inspiração para essas tramas perturbadoras?

Acredito muito na ideia do escritor observador, que está conversando com as pessoas e vendo quais são os debates, os incômodos e as relações. Neste sentido, encontrei, no início da minha carreira na literatura, uma forma de contar histórias e, através delas, refletir sobre questões que me atormentavam. Quando passei a escrever para televisão, percebi que se atinge muito mais gente. Isso traz uma responsabilidade. Então, quando me pediram uma série policial na Netflix, pensei que queria usar a estrutura de série policial para discutir assuntos e provocar. A violência é algo muito humano. Somos os únicos animais que praticam violência por ciúme, inveja, ganância, racismo e homofobia. A minha maneira de ver o mundo é um pouco através da chave da violência.

Por que a terceira temporada tem apenas três episódios?

Por questões de produção trazidas pela Netflix, pela agenda de atores e pelo timing, eles propuseram fazer três episódios fortes e mais longos que os anteriores. Aceitei. Achamos que seria suficiente para fechar. O tema é muito complexo, então, se eu tivesse mais episódios, poderia trabalhá-los em outro estilo, mas, honestamente, gosto de como ficou. Se pudesse brincar de vidente, diria que esse formato vai virar tendência do mercado.

A série nasceu do livro homônimo escrito com a Ilana Casoy. Vocês fariam outros, e cada temporada seria baseada num deles. Por que isso não ocorreu?

Aconteceu a sina do George Martin (criador de “Game of Thrones”), quando a série ultrapassa o livro e ganha uma existência por si só. Temos vontade de escrever os próximos livros, mas nem sei se as histórias seriam as mesmas. Talvez os personagens sejam, mas com outras abordagens. Escrevemos 150 páginas do segundo livro antes da segunda temporada, mas não gostamos e jogamos fora. Nossa grande questão hoje é a agenda. Precisaríamos sentar juntos por seis meses.

E como foi fazer novela? Terá cenas pesadas como a série?

O desafio é ter uma grande ideia todo dia, mas eu sempre penso na estrutura de toda a história. Então, não foi difícil escrever 40 capítulos. Não houve um momento em que falei: “Para onde vou agora?”. E a supervisão do Silvio de Abreu significou muita liberdade. Eu sabia que poderia ousar porque ele estaria ali me orientando. Em novela, as tintas da violência são mais diluídas, mas é uma trama policial, de suspense, como as que sempre amei, como “Celebridade”, “Vale tudo”, “Belíssima” e “A próxima vítima”. O que tem de novo e interessante, a meu ver, é que não é uma vingança de uma pessoa contra outra, mas de uma família inteira contra outra. Uma menina perde a mãe, e uma família que perde a filha. Eles se unem para se vingar dos responsáveis. Não é possível ter cenas como as de “Bom dia, Verônica”, mas há sequências e situações dramáticas ousadas, que nunca vi numa novela de TV aberta. Longe de mim querer fazer uma não novela. Ela tem todos os elementos. É muito tradicional e, em certos pontos, disruptiva.

Pode dar um exemplo dessa ousadia?

Eu não tenho tanto apego aos personagens. Morrem muitos, mais de dez ao longo da história. Eu brincava com minha equipe: “Estamos fazendo novela no canal de ‘Game of Thrones’, então, podemos matar”.

Quais os aprendizados após essas experiências?

Não acredito no autor encastelado, mas em contato com os atores, a direção e a produção. Isso faz parte do meu amadurecimento como autor. Tenho 33 anos, comecei o “Bom dia” com 27. Aprendi a usar o que tinha nas mãos. Não adianta escrever algo bom na página se não for fica bom na tela.

Sobre “Dias perfeitos”, o que achou do fato de a série ter final diferente do seu livro?

Uma coisa interessante de adaptar livro é que você tem acesso ao que o público já achou. É um final de que gosto muito, porque fui eu que escrevi, mas é polêmico. O desfecho do livro acontece, mas a série continua depois. Para mim, arrefeceu a necessidade de fazer um segundo livro. Muita gente me pede continuação. Acho bem legal o final da série.

Você também escreveu os filmes sobre a Suzane von Richthofen que repercutiram no Prime Video. Faria outro projeto sobre ela?

Tudo é possível, mas eu confesso que, neste momento, não me interessa. Estou focado em literatura e projetos de ficção para a televisão. Tenho algumas histórias originais que são sobre o agora, não dá para fazer depois. Mesmo tendo só 33 anos, sinto uma certa urgência.

Quais são esses projetos?

O livro “Uma família feliz” sai em março pela Companhia das Letras. Escrevi primeiro o roteiro do filme, de que fui diretor assistente. Em 4 de abril será a estreia nos cinemas. Livro e filme não são idênticos, mas complementares. Estou pensando nos próximos. Tenho três ideias e vou escolher. Também estou escrevendo uma nova proposta de novela e começando a desenvolver a bíblia de uma série para a HBO.

Quais são seus sonhos? O que você pensa quando olha para os projetos que concluiu?

Uma das minhas vontades é dirigir um filme. Sem dúvida, a outra é escrever novela na TV aberta. Só não diria sonhos, mas projetos. Sonho é mais abstrato. Sou virginiano, prefiro coisas concretas. Minha mãe é advogada e meu pai, engenheiro. A ideia do mundo artístico, de escrever para cinema e TV e até viver de literatura no Brasil, um país onde se lê tão pouco, parecia algo inatingível. Tanto que sou formado em Direito. Na época da escola, eu falava: “Vou ser escritor, um dia vou fazer novela”. Meu amigos diziam que não. Eu tinha que acreditar no que ia acontecer comigo. Engraçado que, por causa da escrita, acham que sou pessimista, mas eu sempre fui otimista. Deixo o pessimismo para a literatura.

As pessoas devem ficar curiosas para saber quem você é, por conta das histórias…

O tempo inteiro. Tenho leitores que, na noite de autógrafos, ficam com medo de me conhecer. No dia a dia, sou absolutamente otimista, animado. Não sou introspectivo. Para mim, é tudo objetivo. Acho que isso vem da minha origem suburbana. De algum modo, me dá mais concretude e pé no chão, e menos filosofia. As pessoas se surpreendem por acharem algumas histórias assustadoras e depois pensarem: “Caramba, dá para escrever isso e ao mesmo tempo gostar dos encontros, das boas amizades”. O escritor tem que estar no mundo. Não acredito em escritor que não pega metrô ou ônibus.

Você faz terapia? Isso ajuda no trabalho?

É essencial. A terapia foi muito importante quando eu me assumi gay para os meus pais, na adolescência. Desde então, está na minha vida. Você tem que vestir outros corpos e cabeças. Amo conhecer gente diferente de mim, que não pensa como eu e que tem outras experiências de vida. Não sou hermético nas minhas ideias, sempre repenso. O trabalho do escritor é exercer essa espécie de empatia por todos os lados, por mais absurdo, violento e bizarro que pareça. Por isso eu consigo escrever o Jerônimo, o Brandão e tantos outros.

acho ele gostoso e talentoso