Reynaldo Gianecchini fala do filme "Uma família feliz", da desconstrução da imagem de galã e críticas após ser escolhido para viver drag

Reynaldo Gianecchini não tem mais a pretensão de corresponder às expectativas que vêm de fora. Aos 51 anos, o ator, que marcou a teledramaturgia brasileira com seus protagonistas de novelas e se consagrou como um dos mais famosos galãs da Globo, está expandindo seus horizontes. Seja no teatro, na TV ou no cinema, ele conta que tem buscado outras experiências na atuação:

— Não tenho nada contra o galã. Ele pode ser muito legal, e sempre me preocupei em interpretar um galã crível, não só um príncipe idealizado que não existe. Agora que não estou mais na fase de novelas e de ter contrato fixo, eu pensei que chegou a hora de fazer coisas diferentes. Testar novos formatos, personagens, coisas que eu nunca fiz, narrativas diferentes… Explorar novos territórios. Eu acho novela incrível, temos uma cultura excepcional de novelas, mas, como eu fiz por 20 anos, chegou a hora de me desafiar em outras coisas.

Os desafios vêm surgindo. O ator interpretou o líder religioso e abusador sexual Matias Cordeiro em “Bom dia, Verônica”, da Netflix, e também aparecerá com um personagem diferente dos que já viveu em “Uma família feliz”. O filme chega aos cinemas nesta quinta-feira (4). O suspense acompanha uma família que vê a fachada de tranquilidade desmoronar quando os três filhos, um bebê recém-nascido e duas meninas gêmeas, aparecem com machucados misteriosos no corpo. Ele interpreta Vicente, o pai, e faz par romântico com Grazi Massafera, que vive Eva, a mãe das crianças. Gianecchini analisa as adaptações que precisou empregar na representação destes personagens:

— A diferença em relação às novelas é que o melodrama é sempre muito explícito no que ele quer mostrar. Não sobra muita dúvida para o público ficar criando nada. Quando você pega um personagem como este, é o oposto, é sobre o que você está escondendo. Não é nada óbvio. Se ele está com raiva, ele finge que não está, só que a raiva tem que estar lá. Esta é a grande dificuldade: mostrar todas essas camadas sem as emoções explícitas. Neste filme, precisa sobrar um espaço para o público interpretar o que o Vicente está sentindo, não pode ser tudo dado. E o público tem que ficar na dúvida também.

Na trama, a família sofre retaliações e ameaças no local onde vive quando Eva passa a ser acusada de machucar os filhos. Para o ator, a gama de assuntos abordados o atraiu:

— Quando li o roteiro, aceitei na hora. Ao longo dos ensaios, fui vendo o tanto de camadas para serem debatidas. A maternidade idealizada e romantizada; as questões do puerpério; o machismo, quando o homem tenta descredibilizar a mulher como mulher e como mãe; as falsas aparências; e a questão do cancelamento, hoje em dia sumário. As pessoas nem são julgadas e já são canceladas.

Os julgamentos no tribunal da opinião pública são velhos conhecidos de Gianecchini. Hoje, ele conta que mantém uma relação de distanciamento das críticas, mas nem sempre foi assim:

— Se eu fosse ligar mesmo e basear meu trabalho nisso, eu teria parado lá atrás, em “Laços de família” (novela em que estreou). Eu fico atento ao que as pessoas escrevem, mas vejo a rede social com muito distanciamento. Está difícil, as pessoas estão com o emocional abalado, principalmente desde a pandemia. Quando eu vejo um hater, uma pessoa que entra na minha rede para me achincalhar, isso diz mais respeito a essa pessoa do que a mim. Não posso levar em consideração, é uma coisa tóxica que tem a ver com essa pessoa, com a raiva dela. Eu leio com discernimento, senão a gente pira. Acho que o mundo está bem dodói emocionalmente, e a gente também. Faço exercício de sanidade todos os dias.

Nos últimos anos, Gianecchini passou a falar abertamente sobre sua sexualidade. Ele se identifica como pansexual, orientação que abrange atração sexual e romântica por todos os gêneros. Mas ainda encontra certa resistência, dentro e fora da comunidade LGBTQIAPN+. Em fevereiro, o ator foi confirmado como protagonista do musical “Priscilla, a rainha do deserto” — uma adaptação do filme de 1994 que se estabeleceu como um marco da cultura LGBQTIAPN+, em especial do movimento artístico das drag queens. A estreia está prevista para junho. Ele acabou sendo alvo de muitas críticas nas redes.

— Essa temática sempre me interessa, apesar de um monte de gente me criticar e falar que não represento nenhuma sigla nem nunca fiz nada pela comunidade. As pessoas esquecem que eu já falei que sou pansexual, que já tive romances com homens e mulheres. Dizem: “Por que ele não sai logo do armário?”. O que mais querem? Detalhes da minha vida íntima? Não vão ter — desabafa o ator. — Agora, a liberdade de você ser quem você é e explorar a sua sexualidade sem vergonha, isso tudo uma hora eu senti vontade de falar. É importante, e eu quis comprar essa briga. Eu sou uma das letrinhas da sigla, eu me defino como pansexual. Se é que dá para definir. Dá vontade de não definir nada, sou aberto a tudo.

Para se preparar para o papel, Gianecchini mergulhou nas produções sobre drag queens ao redor do mundo. Ele conta que já assistiu à franquia “RuPaul’s Drag Race” — incluindo alguns episódios da versão brasileira, lançada na Paramount+ no ano passado — e ao reality “Caravana das drags”, do Prime Video.

— Na pandemia, comecei a assistir a “RuPaul’s Drag Race”. Fiquei completamente preso naquelas drags tão talentosas. Não tinha noção de que a arte drag chegou a esse patamar, de ser tão espetaculosa, grandiosa, de tantos talentos. São artistas incríveis, que têm muito humor, que é algo de que eu gosto também. E é uma responsabilidade muito grande retratar uma drag, porque eu quero que as drags que assistam se sintam representadas e homenageadas. Queremos mostrar o melhor do mundo drag.