Wilma Petrillo quer adotar filho de Gal e diz que fez de tudo para cantora não falir

Wilma Petrillo se espraia numa poltrona, na sala de reuniões de sua advogada. A viúva de Gal Costa veste um moletom todo preto, o que contrasta com o tom rosinha do tênis esportivo que usava. Sempre de óculos escuros, ela parece ser sempre a mesma. A voz arrastada lembra até a de Gal, se não fossem os rompantes de impaciência, cortando as frases.

Wilma Petrillo, viúva de Gal Costa - Karime Xavier/Folhapress

Agora, Petrillo quer conciliação. Seu desejo é adotar formalmente o filho de Gal, Gabriel Costa Penna Burgos, de quem Petrillo também se diz mãe —nos documentos da adoção, só consta o nome da artista baiana.

Até o momento, Petrillo e Burgos travam uma batalha judicial pelo espólio da cantora. “Essa gente que está falando mal de mim, porque eu teria manipulado Gal, na verdade, está falando mal da própria Gal”, diz Petrillo, ostentando as alianças do casamento. “Ela era uma mulher muito forte, sabia muito bem o que queria e com quem queria andar.”

Há dois meses, a reportagem tenta entrevistar Burgos. A assessoria dele informou, em nota, que as afirmações de Petrillo são falsas e difamam a memória de uma das maiores artistas do Brasil. “É lamentável também a exposição de questões pessoais da vida de Gabriel, alheia aos fatos do processo, para sustentar uma narrativa que não condiz com a realidade nem tem relevância para o caso em pauta.”

No momento, Petrillo acusa Burgos de estar sendo influenciado, supostamente, pela sua nova namorada, que ela identifica como sendo a fonoaudióloga Daniela Marcilio Tonani, quase 30 anos mais velha do que ele e mãe de sua ex-namorada.

Gal morreu em novembro de 2022. Sua certidão de óbito relata que a morte foi em decorrência de um infarto agudo do miocárdio —Burgos, no entanto, diz querer ter certeza de que ela sofreu, de fato, uma parada cardíaca, algo de que tem dúvidas.

Wilma Petrillo e Gabriel Costa Penna Burgos - Divulgação

A cantora tratava um câncer de cabeça e pescoço e chegou a fazer uma sessão de radioterapia. Petrillo afirma que Gal se internou no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, onde ficou dez dias antes de ser liberada para fazer o último show de sua vida, no Festival Coala, em setembro daquele ano.

O imbróglio judicial se iniciou logo quando Petrillo pediu a abertura do inventário. Na ocasião, ela também pediu o reconhecimento da união estável, que manteve durante quase 30 anos com Gal, e a guarda provisória de Burgos, à época menor de idade. A Justiça acatou os pedidos, e Burgos assinou um documento reconhecendo a união.

A reportagem obteve o vídeo da audiência, realizada em março do ano passado na Justiça de São Paulo. “Para mim, [Petrillo] era a minha segunda mãe. Tipo, eu tratava ela como eu tratava a minha mãe”, disse, se referindo a Gal. Na audiência, ele também relata que elas duas foram, juntas, ao abrigo onde ele morava, quando tinha dois anos, e o escolheram para adoção.

“Eu fui mãe de Gabriel, sim, porque cuidei muito dele. Se eu viajava, trazia malas de brinquedos para ele e até levava na casa dos amiguinhos”, diz Petrillo. Indagada por que o menino nunca a chamou de mãe —ele a tratava como “Wi” ou “madrinha”—, a ex-empresária disse não ter tido o desejo de confundir a cabeça de Burgos, porque acreditava que ele não entenderia chamar duas mulheres de mãe.

Wilma Petrillo e Gabriel Costa Penna Burgos - Divulgação

Em um ano, Burgos mudou de opinião. Há dois meses, ele entrou na Justiça pedindo a anulação do reconhecimento da união estável. Ele questiona, assim, a fração da herança reivindicada pela viúva.

O jovem também pediu a exumação da mãe, para que fosse feita uma autópsia. Burgos ainda exige que o corpo seja transladado até o cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro, onde amigos de Gal diziam que ela queria ser enterrada, ao lado do corpo da mãe, Mariah. Petrillo diz ser falsa essa narrativa.

Segundo ela, Burgos namorava, antes da morte de Gal, uma amiga da escola. Numa crise do casal, a mãe dela, que ela diz ser Tonani, se aproximou do menino, afirmando que havia ido ao centro espírita e que os dois eram amantes na encarnação passada. Dessa forma, eles teriam começado a namorar em setembro do ano passado.

“Essa tal da Daniela é uma mulher horrorosa, pavorosa, medonha, de dar medo,” diz Petrillo. A viúva afirma ainda que Tonani é casada e que seu marido apareceu em sua casa, algumas vezes, xingando Burgos.

A reportagem tentou entrar em contato por telefone com Tonani desde o início desta semana, mas não obteve respostas.

Segundo Petrillo, Tonani manipula Burgos, para tentar ficar com a herança. Por isso, segundo a viúva, o menino saiu de casa para morar com a namorada. “Ela quer me tirar da parada”, afirma, acrescentando que Burgos não é a pessoa certa para saber se as duas mantinham um relacionamento.

A viúva afirma ter feito um acordo com Gal para não expor o relacionamento ao menino, porque ele ainda era muito jovem. Só aos dez anos, ela diz, contou a Burgos que era casada com Gal. “Gabriel não sabia de nada. Ele perguntou ‘como é isso?’. E eu respondi ‘é igual quando acontece entre homem e mulher’.”

Ela tampouco se arrepende de não ter feito a autópsia do corpo de Gal, porque todos os médicos atestam a doença. Petrillo afirma também que a cantora, no fim da vida, queria que o corpo de sua mãe fosse trazido a São Paulo. Amigos próximos do casal, no entanto, afirmavam que Gal queria ser enterrada mesmo no Rio de Janeiro, no mesmo jazigo da mãe.

Na época da morte, os fãs reclamaram que o velório da cantora, na Assembleia Legislativa de São Paulo, teria sido muito simples para a importância da artista. Além disso, em geral, após uma morte em casa, corpos são transportados ao Instituto Médico Legal antes de serem encaminhados ao velório ou ao enterro, o que não ocorreu.

“Os fãs são muito difíceis de se contentar. Se fizesse uma coisa ali, eles iam querer outra. O velório não foi nada simples. Caixão vagabundo? O caixão custou R$ 12 mil. O que eles queriam? Bandas de música?”

No meio musical, Petrillo é persona non grata, tendo sido acusada de aplicar calotes, sabotar a carreira de Gal e não ceder direitos da artista.

Em reportagem publicada em agosto do ano passado, a produtora cultural Katia Cesana, que organizava, em 2014, uma apresentação em homenagem a Waly Salomão, afirmou, por exemplo, que Petrillo exigiu o pagamento integral do cachê a Gal, quando o estipulado em contrato era de que o pagamento fosse feito um mês após o show.

Um comportamento similar foi relatado por Vera Galli, amiga da viúva à época. Petrillo teria pedido R$ 15 mil emprestados a ela e nunca teria devolvido o valor. A ex-empresária afirma que todas as acusações são mentirosas.

Ela começou a administrar a carreira de Gal em 1995, na época do lançamento do disco “Mina d’Água do Meu Canto”. Ao contrário de outras estrelas da MPB, Gal não acumulou nenhuma fortuna, diz Petrillo. Indagada se não seria a função dela, como gestora, de zelar pelos bens, ela narra outra história, atribuindo a Gal um comportamento perdulário.

Atualmente, Petrillo tem a ajuda de adiantamentos da gravadora Biscoito Fino, referente aos discos lançado por Gal pela casa. Numa gravação que circulou na internet, ela briga com Burgos, dando socos na mesa, para que ele assinasse a papelada.

“Porra, Gabriel, puta que pariu. Não vai assinar, por quê? Por que é o dono da bola agora? Você só faz merda, você”, diz ela na gravação. “Se você não assinar, a gente não recebe dinheiro e vai passar fome, porque eu não tenho mais um tostão.”

A viúva diz não ter se arrependido do modo como falou. Ela conta que, na ocasião, Tonani estava presente, acariciando Burgos, o que ela diz que a deixou fora de si.

“Você acha que eu fiquei com o dinheiro dela? Gal ganhava muito, mas gastava demais. Ela torrava o dinheiro, não tinha noção de diferenciar US$ 100 de R$ 100”, diz. Ao longo da carreira, Gal, afirma Petrillo, acumulou imóveis e os vendeu.

Em 1995, ela se mudou para Trancoso, na Bahia, depois de vender salas comerciais no bairro carioca do Leblon e um sítio em Petrópolis, no Rio de Janeiro. Percebendo que Trancoso era longe de tudo, comprou dois apartamentos em Nova York, pegando empréstimos no banco.

De volta ao Brasil, diz ainda a viúva, ela se encantou com uma mansão em Salvador, usando todo o dinheiro que tinha para, em 2006, reformar o espaço. Segundo Petrillo, Gal chegou a comprar sete carros. Atualmente, os bens restantes estão sendo levantados no processo do inventário.

“Eu fiz de tudo para que Gal não falisse. Dona Mariah dizia que Gal era uma mula de tão teimosa”, afirma Petrillo. “Ela não ouvia ninguém.”