Anitta, como você nunca a ouviu antes. A superestrela brasileira fala sobre seu novo álbum, o programa ‘SNL’ e Deus.
NOVA YORK (AP) — As luzes estão baixas no Estúdio 8H. Todos os olhares — e todas as câmeras, das quais há pelo menos meia dúzia — estão voltados para Anitta. A superestrela brasileira está no centro, ladeada por dançarinos e uma pequena banda que se alinha ao longo do palco. O silêncio é tão profundo que se ouve um alfinete cair. Um dublê anuncia: “Senhoras e senhores, Anitta”, antes que um clarão de luz vermelha ilumine o ambiente. E assim, de repente, o show começa.
Este é o famoso cenário do programa “Saturday Night Live” no 30 Rockefeller Plaza, em Nova York, e Anitta está ensaiando duas músicas novas — “Choka Choka”, com participação de Shakira, e “Varias Quejas”, uma versão em espanhol de um clássico do Olodum, grupo cultural da Bahia, Brasil — durante o ensaio da semana passada.
Ambas as canções são destaques de seu próximo álbum, “Equilibrium”, uma mistura eclética de funk brasileiro, samba, bossa nova, semba, reggae, pop eletrônico, português, espanhol e inglês — o tipo de lançamento que só poderia se tornar mainstream pelas mãos da musicista brasileira mais popular globalmente desde que Astrud Gilberto cantou “Garota de Ipanema” há mais de seis décadas.
“Acho que esta é a coisa mais brasileira que já fiz na televisão americana”, disse Anitta à Associated Press nos escritórios da NBC logo depois.
E “Equilibrium”? “Com certeza, meu álbum mais brasileiro”, diz a artista Larissa de Macedo Machado. “Eu realmente queria fazer um álbum que homenageasse minhas raízes.”
Um som em evolução
“Equilibrium” representa um salto sonoro em relação ao seu último lançamento, “Funk Generation”, de 2024. Aquele álbum foi uma homenagem completa ao funk brasileiro — frequentemente chamado de funk carioca ou baile funk, e que é ouvido nas favelas do Rio de Janeiro. É uma combinação de ritmos brasileiros, música africana, música eletrônica e rap, gênero que foi estigmatizado como o hip-hop e o reggaeton antes dele. O gênero ainda existe em “Equilibrium”, mas também uma miríade de sons — e crenças — de sua terra natal.
“Algumas das músicas homenageiam entidades da cultura iorubá, como os orixás”, diz ela, referindo-se à religião originária da África Ocidental e seus espíritos divinos, como na faixa “Nanã”. “Uma das músicas fala sobre Deus e como eu vejo Deus na vida.”
Para os fãs de Anitta, não deve ser surpresa: em 2024, ela lançou um videoclipe para a música “Aceita”, que apresentava rituais da religião afro-brasileira Candomblé, gerando controvérsia em um país onde a intolerância religiosa é muito comum. Dar voz a populações marginalizadas, grupos religiosos, mulheres, moradores de favelas, pessoas LGBTQ+ e negras sempre foi um pilar da imagem pública de Anitta.
Globalizando-se ao voltar para casa
Naturalmente, “Equilibrium” também é uma celebração completa da comunidade. O álbum está repleto de colaboradores brasileiros, como a compositora em ascensão Melly, o premiado samba rock de Liniker, a banda brasileira de reggae Ponto de Equilíbrio e muitos outros. Até mesmo “Choka Choka”, o single impactante com a superestrela colombiana Shakira, é uma declaração de amor à cultura de Anitta: a cantora de “She Wolf” canta em português.
“Anitta queria criar algo para o Brasil, mas com um toque internacional”, disse Daramola, co-produtor de “Choka Choka”, em um comunicado à imprensa. Sua percussão funk brasileira “tem muita energia, muita intensidade. E quem melhor para representar esse som do que Anitta e Shakira?”
A música, assim como o restante de “Equilibrium”, busca transmitir uma mensagem universal com sonoridades regionais. Onde ela poderia ter se deixado levar por tendências musicais comerciais convencionais, ela optou por reforçar o que faz de Anitta, Anitta. Claramente, o mundo — e o “Saturday Night Live” — estão prestando atenção.
No passado, “Se eu quisesse atingir um determinado público, eu usava mais inglês, espanhol ou qualquer outro idioma”, diz ela. “E eu simplesmente acho… não sei se as pessoas estão aceitando melhor. Eu não me importo tanto quanto antes.”
Ela ainda canta em três idiomas, mas o português assume o protagonismo. Talvez isso se deva ao fato de que este seja o trabalho mais livre de Anitta em sua carreira. Considere uma música como a melosa “Vai Dar Caô”, com participação da rapper Ebony e do produtor Papatinho, que sampleia “A Pedido”, de DJ Mandrake e MC Tikão, construída sobre uma interpolação noturna de “Moments In Love”, clássico new age de 1984 do Art of Noise. Os raps de Anitta são demonstrações de talento, algo que não destoa ao lado dos violões clássicos de cordas de nylon de uma música mais suave, como “Ternura”.
Em “Equilibrium”, a especificidade e a narrativa são fundamentais. “Na última música, também incluímos um mantra da deusa Tara, uma deusa de outra religião”, diz ela.
Anitta se refere a “Ouro”, uma colaboração com a dupla brasileira Emanazul, que descreve seu trabalho como música medicinal. Ela chama a canção de “meditação”.
“Não quero que as pessoas pensem que este é um tipo de pensamento, uma única direção. Gosto de unir forças”, diz ela. “Acho que é disso que se trata este álbum: honrar as raízes brasileiras, honrar tudo aquilo que, na minha opinião, pode nos fazer sentir elevados.”
Se ela parece realizada, é porque essa é a ambição dela para o álbum. “Acho que a mensagem principal é que somos todos um. Vivemos em um planeta, a Mãe Terra. É a nossa casa. Devemos viver em harmonia uns com os outros, respeitar os gostos, as decisões e as formas de comunicação de cada um. Devemos simplesmente admirar as nossas diferenças”, diz ela.
É uma mensagem profunda, mas transmitida em uma embalagem pop. “Acho que o álbum traz muitos instrumentos divertidos, percussão e tudo mais, mas também nos proporciona momentos para… encontrarmos o equilíbrio, o meio-termo, o jeito certo de fazer as coisas”, ela sorri. “Esse é o segredo.”
