A inflação mensal da Argentina acelerou pelo décimo mês seguido em março, atingindo o maior patamar desde março do ano passado, superando as expectativas dos analistas e frustrando as expectativas do governo do presidente da Argentina, Javier Milei, de frear o aumento dos preços.
O Índice de Preços ao Consumidor (IPC) subiu 3,4% no mês passado em relação a fevereiro, quando o índice foi de 2,9%, segundo os dados divulgados nesta terça-feira (14) pelo Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec). A inflação anual ficou em 32,6% no terceiro mês do ano e acumula 9,4% em 2026.
“Foi um dado ruim, não só pela dinâmica de alta anterior, mas também porque novamente veio pior do que o esperado”, avalia Nicolás Alonzo, analista da consultoria Orlando J. Ferrerés & Asociados.
Segundo a Pesquisa de Expectativas de Mercado (REM), elaborada pelo Banco Central da República Argentina (BCRA), analistas acreditavam que a inflação seria de 3,1%.
O ministro da Economia, Luis Caputo, afirmou nesta terça-feira que esse aumento da inflação ocorre por conta do choque do petróleo, ocasionado pela guerra no Oriente Médio, e também pela sazonalidade característica do mês.
“Tudo relacionado ao petróleo teve um impacto óbvio, desde as passagens aéreas domésticas até o transporte, a educação e a sazonalidade”, argumentou o ministro da Economia, em um evento na Argentina.
No entanto, Alonzo alerta que, embora o aumento dos custos de energia tenha influenciado, desde abril de 2025 a inflação vem subindo quase de forma ininterrupta. “Há muita movimentação de outros preços regulados e bastante inércia inflacionária”, completa.
Segundo o Indec, o setor que sofreu a maior alta foi o de preços regulados (5,1%), impulsionado por reajustes nas tarifas de serviços públicos, transporte e educação. Em seguida, aparecem em alta os setores de núcleo do Índice (3,2%) e itens sazonais (1,0%).
Já os dois setores com menores variações em março foram os de bens e serviços diversos (1,7%) e equipamento e manutenção do lar (1,3%).
Milei tem enfrentado dificuldades para conter a inflação mensal desde que ela atingiu uma mínima de sete anos, de 1,5%, em maio do ano passado, após ter alcançado um pico de 25,5% quando assumiu o cargo, em dezembro de 2023.
“O dado é ruim. O dado não nos agrada, já que a inflação nos repugna”, afirmou o presidente pelas redes sociais após a divulgação. “No entanto, hoje temos elementos concretos que nos permitem explicar o que aconteceu e, especialmente, esperar que, no futuro, a inflação retorne à sua trajetória de queda”.
Para o diretor da consultoria Perspectiv@s, Luis Secco, o processo de desinflação aplicado pelo governo argentino “perdeu força” nos últimos meses. Secco destaca que talvez o programa adotado pelo Milei não seja mais compatível com as “restrições macroeconômicas atuais”.
“A questão relevante já não é se o governo conseguiu reduzir a inflação — conseguiu. A dúvida é se as ferramentas escolhidas para continuar reduzindo-a são compatíveis com as restrições macroeconômicas atuais”.
O dado oficial foi divulgado horas depois de o Fundo Monetário Internacional (FMI) revisar sua projeção de inflação anual para este ano na Argentina para 30,4%, quase o dobro da estimativa anterior, além de reduzir a previsão de crescimento econômico de 4% para 3,5%, devido à queda da demanda global e às dificuldades provocadas pela guerra.
No orçamento nacional para este ano, o governo havia projetado uma inflação de 10,1%, meta que, nesse ritmo, será impossível de cumprir.