
Neymar participa de treino com a seleção brasileira. - Foto: Reprodução redes sociais
The Times mostra como a eliminação do Brasil na Copa de 2026 alimentou um debate nas redes sociais sobre o avanço evangélico e a identidade do futebol nacional
Por Cristiano Stefenoni
A eliminação do Brasil para a Noruega nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026 ultrapassou o campo esportivo e deu origem a um debate sobre identidade cultural e religião. Em reportagem publicada pelo The Times, um dos jornais mais tradicionais do Reino Unido, o correspondente Stephen Gibbs analisa como parte das reações nas redes sociais passou a associar o desempenho da Seleção Brasileira ao crescimento do evangelicalismo no país.
Segundo a publicação, usuários das redes sociais defenderam a tese de que a transformação religiosa do Brasil teria coincidido com uma mudança no estilo do futebol brasileiro. Uma das postagens reproduzidas pelo jornal afirmava que “o Brasil era melhor quando seus jogadores eram mulherengos, beberrões e um pouco fora de forma. Em outras palavras, quando se comportavam como católicos”. Outra mensagem, que também ganhou grande repercussão, dizia que a “esterilização protestante evangélica achatou a bola, destruiu o samba e eliminou o estilo brasileiro”.
O The Times destaca que esse tipo de argumento ganhou força logo após a derrota para a Noruega, tornando-se um dos temas mais comentados entre torcedores. Para contextualizar o debate, o jornal lembra que o Brasil vive uma das maiores transformações religiosas de sua história recente. Enquanto os católicos representavam cerca de 80% da população no início dos anos 2000, atualmente correspondem a aproximadamente 55%. No mesmo período, a proporção de evangélicos passou de cerca de 15% para mais de um quarto dos brasileiros.
A reportagem também afirma que 20 dos 26 jogadores convocados para a Copa de 2026 professam a fé evangélica, destacando manifestações públicas de religiosidade antes e depois das partidas, como orações coletivas e declarações de agradecimento a Deus.
Apesar da repercussão das críticas nas redes sociais, o jornal apresenta diferentes interpretações para o fenômeno. Entre elas, a de que as mudanças no futebol brasileiro refletem transformações culturais mais amplas, e não apenas religiosas. Especialistas ouvidos pela reportagem apontam fatores como a globalização do esporte, a profissionalização precoce dos atletas, a influência do futebol europeu e mudanças no comportamento da sociedade brasileira.
O texto também menciona que parte dos comentaristas brasileiros considera inadequado atribuir o desempenho esportivo à religião dos jogadores. Para esses analistas, a associação simplifica um cenário complexo, ignorando questões técnicas, administrativas e estruturais que há anos afetam o futebol nacional.
Ao abordar a discussão, o The Times ressalta que a relação entre futebol, cultura e religião tornou-se um dos temas centrais das reações à eliminação brasileira. Embora o debate tenha ganhado força nas redes sociais, a publicação não apresenta evidências de que a fé dos atletas tenha influência direta sobre os resultados em campo, tratando o episódio como um reflexo das profundas mudanças sociais e religiosas vividas pelo Brasil nas últimas décadas.
O debate levantado pelo The Times
- A derrota para a Noruega desencadeou uma discussão nas redes sociais.
- Postagens relacionaram o crescimento evangélico à mudança no estilo da Seleção.
- O jornal afirma que cerca de 20 dos 26 convocados são evangélicos.
- A reportagem lembra que a participação dos católicos diminuiu nas últimas décadas, enquanto a dos evangélicos cresceu significativamente.
- Especialistas citados pelo jornal afirmam que fatores culturais, econômicos e esportivos também explicam as mudanças no futebol brasileiro, sem estabelecer relação causal entre religião e desempenho.
