Não há como assistir a O Testamento: O Segredo de Anita Harley e se manter indiferente à história e aos personagens retratados ali. Isso explica, em parte, a grande repercussão da série em cinco episódios, disponíveis no Globoplay desde o fim de fevereiro. Mesmo com muitos meses pela frente, esta já se mostra como uma forte candidata a melhor produção brasileira do streaming em 2026.
O foco está na disputa entre duas mulheres pelo reconhecimento como companheira de Anita Harley, herdeira das Lojas Pernambucanas, dona de uma fortuna bilionária e que está em coma há 10 anos. Para narrar esse caso, a produção ouve não só os envolvidos diretamente na briga, mas parentes e amigos que conviviam com a empresária.
Cristine Rodrigues, secretária de confiança de Anita, foi designada por ela como responsável por seus cuidados em um testamento vital, documento que permite a outra pessoa expressar seus desejos em caso de incapacidade. Já Sônia Soares, conhecida como Suzuki, residia na mansão da bilionária e, assim como a rival nos tribunais, se apresenta como a verdadeira companheira.
Surge em seguida uma variedade de figuras que, para o bem ou para o mal, hipnotizam o telespectador. Alguns destaques são Arthur Micelli, filho biológico de Suzuki e reconhecido judicialmente como filho socioafetivo de Anita; e o advogado Daniel Silvestri, que assume papel central nas disputas empresariais e na reconfiguração do poder dentro das Pernambucanas.
As irmãs Andréa e Juliana Lundgren, primas de segundo grau de Anita, gravaram seus depoimentos juntas. Elas roubam a cena pela espontaneidade e por falas contundentes, como a frase dita em coro: “Tia Helena odiava Suzuki, chamava de ‘golpista’”. Espécie de alívio cômico, a dupla também é responsável por um dos momentos mais dramáticos da produção.
Algumas “subtramas” ficam pelo caminho, como a de Vidya, sobrinha de Anita há anos internada em uma clínica psiquiátrica – entrecho que, por si só, renderia pelo menos um episódio inteiro. E ainda uma personagem que surge ao final da série, indicando possíveis novos desdobramentos na disputa e também a possibilidade de outras temporadas para a série.
Mais do que uma mera disputa por uma herança, o que se vê em cena é uma guerra de narrativas. Quem está dizendo a verdade? Só há uma verdade ou várias? Além disso, todo o contexto expõe como o apagamento de casais homoafetivos, por tanto tempo mantidos longe dos holofotes, podem gerar situações que a Justiça, mesmo hoje, não dá conta de abranger.
A atração liderou por semanas o ranking de audiência do Globoplay e chegou a superar o BBB 26 e a atual novela das 21h, Três Graças. O feito inédito e o alcance deste documentário só são equiparáveis, entre os títulos da plataforma de streaming, a Vale o Escrito (2024), que abordou o universo do jogo do bicho no Rio de Janeiro.
O atrativo não é só o caso real exposto ali. A série nos mostra como a realidade é capaz de produzir histórias tão mirabolantes quanto a ficção, mas, além disso, os profissionais de criação, roteiro e direção, liderados por Camila Appel, souberam transpor para a tela, com linha narrativa impecável, o emaranhado de fatos que cercam aquelas pessoas.
O sucesso popular não se deve apenas à profusão de reviravoltas e aos tipos marcantes que aparecem em cena, mas principalmente à forma bem-sucedida com que tudo é distribuído e narrado. A equipe soube aproveitar as nuances de cada novo acontecimento e as características dos entrevistados e, assim, conseguiu fazer desta uma série imperdível.
O Testamento: O Segredo de Anita Harley tem direção de Camila Appel, codireção de Dudu Levy, roteiro de Ricardo Calil, Camila Appel e Iuri Barcelos. Iuri também assina a pesquisa. A produção é de Anelise Franco, a produção executiva de Fernanda Neves e a direção artística é de Monica Almeida. Todos os episódios estão disponíveis para assinantes no Globoplay.