O lançamento do GloboPop talvez não tenha chamado a atenção como deveria. Afinal, o aplicativo é uma resposta da Globo à sua principal concorrência hoje: não a Record ou o SBT, mas as big techs. O grupo de mídia agora entra numa tendência em que Google e Meta já estavam há anos --lucrar, e alto, com algoritmos e dados.
Como o Notícias da TV já havia mostrado, a Globo enfrentava uma situação bastante delicada ao investir em nichos como novelas verticais. Pela primeira vez, não tinha o controle completo --da produção à distribuição-- de seu conteúdo. Precisava se submeter a lógicas de empresas como a ByteDance (TikTok) ou a Kuaishou (Kwai).
Ou seja, os produtos da emissora precisavam concorrer com outros conteúdos --às vezes muito mais baratos do que os feitos dentro de um “padrão Globo de qualidade”-- pela atenção do público em algoritmos que não necessariamente os favoreciam.
Esse cenário muda com a chegada do GloboPop, em que a Globo parece não ter só o controle do conteúdo que circula por lá --o que facilita e, muito, tarefas conhecidas como HITs (Human Intelligence Tasks), aquelas em que a tecnologia não consegue (ainda) superar o ser humano, como na revisão de posts impróprios ou duplicados.
A empresa agora também controla o algoritmo, o que é uma vitória e tanto para um grupo de mídia que tenta sobreviver a uma virada em que a televisão cada vez mais perde espaço na produção simbólica. Ninguém sabe muito bem o que está acontecendo com Agrado (Isadora Cruz) em Coração Acelerado, mas tem opiniões muito fortes sobre a fidelidade --ou não-- das frutas.
Isso acontece porque as novelinhas criadas por inteligência artificial têm ocupado um espaço privilegiado de acesso ao imaginário, mediado principalmente pelas novas tecnologias. Para correr atrás disso, a Globo tem investido em pesquisas como o Brasil no Espelho, para ofertar exatamente aquilo que o país aparentemente quer ver. O que nem sempre funciona.
Dados, dados e mais dados
Outro ponto importante é que a Globo entra de cabeça em um negócio que tem se mostrado tão lucrativo que já mudou até o paradigma de produção dentro do Capitalismo (ou qualquer outro termo que comece com uma letra maiúscula e descreva o que vivemos hoje). A empresa já tinha expertise em dados, mas o GloboPop está em outro patamar.
O usuário já sabia --ou ao menos deveria saber-- que não apenas a Globo, mas também empresas como Netflix e Amazon registram pequenas informações sobre quem utiliza seus serviços. Esses dados são coletados por meio dos chamados cookies, hoje minimamente regulamentados no Brasil. É por isso que, ao acessar uma plataforma pela primeira vez, surge a solicitação para aceitar as definições de uso --ainda que a maioria das pessoas clique em “aceitar” sem ler os termos associados.
De acordo com a LGPD (Lei Geral de Produção de Dados), qualquer empresa que registre esses dados precisa explicar minimamente quais são, como serão usados e quem também terá acesso a eles. A Globo, por exemplo, condensa essas questões nesta página (caso bata a curiosidade do leitor).
Hoje, assistir a TV aberta, ver o Globoplay, ler uma notícia no G1 ou no Gshow --ou mesmo aqui no Notícias da TV-- e votar nos paredões do BBB 26 geram dados. Eles são utilizados principalmente no relacionamento com o mercado publicitário. Só que o GloboPop não é centrado apenas na leitura, mas na produção desses dados.
É a sensação de rodar, rodar e rodar
O GloboPop vai concorrer com Kwai, ReelShort e PineDrama, mas também com Instagram, X e Facebook, por um recurso cada vez mais escasso: a atenção. O usuário não tem um papel passivo, como o de quem assiste à TV aberta, mas ativo --o de produzir, sem parar, dados e mais dados.
Esses dados não só vão alimentar a sua experiência dentro do aplicativo, como também vão ajudar a Globo a lucrar. Quanto mais tempo a pessoa permanecer dentro do sistema, o que fica conhecido como doomscrolling --o ato de consumir compulsivamente conteúdos rápidos-- mais ela vai produzir dados. E mais vai gerar recursos.
E aqui o novelo começa a se desenrolar: o doomscrolling é um fenômeno ainda pouco estudado, especialmente no Brasil, mas já desperta a atenção de diversas áreas. Alguns levantamentos mostram que ele está por trás de efeitos psicossomáticos como problemas da atenção, aumento da ansiedade e até casos de depressão.
A questão é um pouco mais complicada do que a decisão individual de cuidar de si. O doomscrolling também vai causar impactos sociais e, principalmente, ambientais. E aí a Globo pode --e deve-- ser demandada por questões como: o Globoplay vai fazer uso de inteligência artificial para produção de conteúdo? Como esse uso vai se adequar às suas políticas ESG?
Quando a gente fala num aplicativo, ou mesmo em I.A, parece que estamos falando de algo que só existe numa “nuvem”, sem impactos no mundo material. Pelo contrário, os avanços da tecnologia são intimamente ligados à terra: desde os minerais utilizados para produção de dispositivos, como o lítio para bateria de celulares, ao controversos datacenters.
Hoje, não só no Brasil, mas em todo mundo, o consumo de energia e de água desses datacenters ainda é cercado de muitos segredos. Quanto eles consomem? Quem está pagando essa conta? Os recursos utilizados nos processamentos de dados estão sendo retirados de comunidades ou ecossistemas que são relegados por sua “menor” importância econômica?
Uma questão que não só a Globo, que chega atrasada à essa nova “corrida do ouro”, mas todo um setor de tecnologia tem de responder.