Crítica completa:
Lembrei de muitas outras artistas ao ouvir Brutal Paraíso, o novo álbum de Luísa Sonza. Mas foi difícil de encontrar, nele, a própria Luísa.
A cantora gaúcha é um dos nomes mais conhecidos do pop brasileiro. Presença constante nas redes sociais e nas páginas de fofoca, ela coleciona polêmicas e declarações controversas, que – para o bem e para o mal – ajudam a emplacar seus lançamentos entre os assuntos mais comentados na internet.
Pois bem: Distrópico, a faixa de introdução desse seu quarto disco solo, é cheia de melodias e batidas confusas e desconexas. Ela já sinaliza que não há muita coerência no que vem a seguir. São 23 músicas: Primeiro, um pouco de bossa nova; depois, um trecho mais roqueiro; em seguida, pop oitentista; e aí funk, funk, funk; um “hola, qué tal?” para o pop latino cantado em espanhol; no fim, pop rock com refrão gritado.
Todas essas partes pouco conversam entre si. Mas, atirando para todo lado, uma hora se acerta alguma coisa. Não é falta de poder de síntese, é estratégia: o disco grande dá volume ao número de plays na internet e aumenta a chance de sair um hit.
A música E Agora? tem o funk-samba-soul-eletrônico que faz lembrar Fernanda Abreu; Loira Gelada tem transições melódicas e distorções de voz que são a cara de Billie Eilish; Diferentemente parece um sucesso de Sabrina Carpenter com toque brasileiro; No Es Lo Mio começa com a performance vocal de flamenco de Rosalía; Tu Gata remete a Shakira e a faixa-título mira em Taylor Swift.
As referências aparecem de forma óbvia demais, incluindo pouquíssimos traços de identidade da própria Luísa. Dá a sensação de que ela está perdida no personagem, sem saber qual rumo tomar na carreira, em busca de seu verdadeiro eu.
Um bom norte talvez seja Amor, que Pena!. A música é inspirada em Que Pena, de Jorge Ben, eternizada na voz de Gal Costa, e o resultado se equilibra bem entre a homenagem e o repertório de Luísa, conversando com seus trabalhos anteriores.
A cantora se sai melhor ainda quando consegue se libertar da pretensão para focar na diversão. Sonhei Contigo é um funk de batida contagiante e acelerada, perfeito para fazer cardio na academia – certamente ouvirei muito nesse contexto.
Depois de quase dez anos de uma carreira muito bem-sucedida comercialmente, Luísa Sonza já mostrou que sabe fazer hits – Motinha 2.0, Anaconda, Sagrado Profano, Penhasco e Chico são só algumas de suas músicas tocadas à exaustão nas rádios e nas plataformas digitais.
Há anos ela também vem deixando claro quais são suas referências, e que consegue ser uma artista versátil, transitando do proibidão à MPB suave. Agora, falta a Luísa mostrar quem quer ser de verdade.