‘Filme de terror’: a ameba ‘comedora de cérebros’ que tem se espalhado pelo mundo
Ameba ‘Naegleria fowleri’ pode alcançar o cérebro pelas narinas quando as pessoas mergulham na água e, frequentemente, é fatal.
Poucos dias depois do que deveria ter sido um divertido período de férias em família na Costa Rica, Steve Smelski estava na unidade de terapia intensiva, lamentando a morte do seu único filho.
Jordan tinha 11 anos. Ele morreu de infecção cerebral causada pela Naegleria fowleri, mais conhecida como a “ameba comedora de cérebros”.
Tipicamente encontrada em lagos e fontes de águas quentes, além de piscinas abandonadas, a ameba entra no corpo pelas narinas, quando as pessoas pulam na água. Ela começa, então, a atacar rapidamente o tecido cerebral.
“Jordan nadou um dia, uma vez, e, agora, ele se foi”, conta Steve, hoje com 67 anos, ao Serviço Mundial da BBC.
No ano passado, foram identificados mais de 200 casos de infecções por Naegleria fowleri na Índia, o maior surto já registrado em todo o mundo. E novos casos continuam a surgir no país nos últimos meses.
Até então, menos de 500 casos haviam sido identificados em todo o mundo.
O surto gerou novos receios entre os pesquisadores. Eles afirmam que o organismo microscópico está sendo detectado em locais onde raramente era observado.
Em abril, uma criança de nove anos morreu em Rondônia com infecção por Naegleria fowleri, segundo a Agência de Vigilância em Saúde do Estado.
“Acho que haverá mais casos no futuro. Nós iremos observá-los em todo o mundo”, afirma o parasitologista molecular Anastasios Tsaousis, da Universidade de Kent, no Reino Unido.
Entre 1962 e 2023, foram relatados em todo o mundo 488 casos, segundo uma análise de 2025, publicada pelo Journal of Infection and Public Health.
A maioria dos casos ocorreu no sul dos Estados Unidos, no Paquistão e na Austrália. Cerca de 97% das vítimas morreram.
Mas, nos últimos 20 anos, foi detectada uma proporção maior de casos em países do hemisfério norte, incluindo a Itália e a Bélgica.
Novas infecções também foram encontradas nos últimos 15 anos no norte dos Estados Unidos, que é mais frio, incluindo no Estado de Minnesota. E, no ano passado, a Eslováquia registrou seu primeiro caso confirmado de infecção por Naegleria fowleri.
Os casos também foram relacionados a ambientes fora dos lagos e rios tradicionalmente associados à ameba.
Em Taiwan, um homem morreu em 2023 após exposição à Naegleria fowleri em um local fechado de surfe. No mesmo ano, nos Estados Unidos, uma criança contraiu a infecção fatal após utilizar um “tapete de água” contaminado.
Com as mudanças climáticas aquecendo lagos e tanques, a ameba começa a se expandir para regiões onde, antes, era muito frio para que ela pudesse se desenvolver.
“Quando a água se aquece, a ameba fica mais ativa”, explica Tsaousis. “Com isso, aumenta a possibilidade de infecção das pessoas durante atividades recreativas.”
Ele alerta que não há motivo para pânico, mas as pessoas devem estar “atentas” ao aumento do risco.
Tsaousis também acredita que os cientistas estão começando a detectar melhor a ameba, o que pode estar colaborando para o aumento dos casos registrados.
“Minha hipótese é que os números podem ter sido sempre altos e, agora, estamos simplesmente percebendo o aumento destes casos porque sabemos como fazer o teste”, explica ele.