No dia 19 de junho de 2011, em visita a Brasília, o então presidente Barack Obama ordenou bombardeios à Líbia para derrubar o regime de Muamar Kadafi. A ação ocorreu sem aval do Congresso em Washington e através de uma distorção da resolução 1.973 das Nações Unidas. O ditador líbio acabaria deposto e morto dias depois por milícias armadas pelos EUA.
Ao longo do seu mandato, o democrata bombardeou, além do território líbio, a Síria, o Paquistão, o Iêmen, a Somália, o Afeganistão e o a Iraque. Este último dos sete países foi atacado por todos os presidentes dos EUA nos últimos 37 anos - George Bush (o pai), Bill Clinton, George W. Bush, Obama, Donald Trump e Joe Biden. Espanta, portanto, ver alguns dizerem que o atual presidente seria o primeiro a desrespeitar as regras do direito internacional, como se fosse algo inédito. Não foi. Os antecessores dele na Casa Branca também realizaram ações militares sem consultar deputados e senadores e ignorando completamente a comunidade internacional.
Usei Obama como exemplo porque às vezes há a sensação de que o cenário seria muito diferente nas administrações dele. Domesticamente, sem dúvida. Mas muitas ações ordenadas pelo democrata, como na mudança de regime na Líbia, que segue instável até hoje, e na morte de centenas de civis iemenitas em ataques de drones devem ser condenadas. Foram operações comparáveis ou até piores do que a de Trump na Venezuela. Por que agir para na prática matar Kadafi e provocar a destruição da Líbia seria menos grave do que capturar Nicolas Maduro? Nem debaterei sobre Bush, que invadiu e destruiu o Iraque com base em informações falsas. Centenas de milhares de iraquianos morreram na guerra, além de 4 mil soldados norte-americanos (e o dobro deste número se suicidou ao retornar aos EUA).
O ineditismo da ação de Trump foi invadir um país da América do Sul. Aliás, é preciso diferenciar América do Sul de América Latina, como explico na minha newsletter no Globo desta quinta . Seria impensável em um passado recente uma operação militar na norte-americana em um país sul-americano. Mas veriam com naturalidade no Oriente Médio. Afinal, o direito internacional não é aplicado há décadas em nações como Iraque e o Iêmen. Agora a América do Sul entrou na lista.
Desde Clinton, a América do Sul havia sido relativamente abandonada pelos EUA, abrindo espaço para um fortalecimento da China cada vez maior na região no âmbito econômico. Bush, em uma época na qual a economia e poderio geopolítico da China era menor, estava focado em suas guerras no Iraque e no Afeganistão. Fluente em espanhol, até gostava da América do Sul e esteve duas vezes no Brasil. Mas não teve como priorizar. Obama, Trump 1 e Biden simplesmente ignoravam a região. O ex-secretário de Estado, Anthony Blinken, que não sabe dar “good morning” em português ou espanhol, tratava de uma forma esnobe a região.
Com o secretário de Estado, Marco Rubio, Trump parece ter dado uma guinada e passou a priorizar a América do Sul. A partir de agora, os países do continente do Brasil não são mais imunes a ataques dos EUA.
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