Guta Stresser relembra auge na televisão, desavença com colega de elenco e vida após a Bebel: 'A dor e a delícia'

Guta Stresser relembra auge na televisão, desavença com colega de elenco e vida após a Bebel: ‘A dor e a delícia’

Em entrevista, atriz, que hoje vive em Curitiba, diz que a cidade lhe deu um pertencimento diferente e que reinventou a relação consigo mesma: ‘Estou com 53 anos. É outra vida possível’

Destoando da sisudez de uma Curitiba neutra e ponderada, Guta Stresser dobra uma esquina do Centro carregando um grande “Foda-se” estampado em letras garrafais numa bolsa enorme, laranja, que traz a tiracolo enquanto caminha em direção ao Nina. O bar foi local desta entrevista que a atriz de 53 anos deu ao GLOBO e é refúgio boêmio de artistas da capital paranaense. Ela chega sorrindo, gesticulosa, pede um chope e desculpas pelo atraso. Acende um cigarro e põe-se a falar com descontração e leveza, o charme de artista. Chama os garçons pelo nome, afetuosa, e responde “capaz!” quando um músico se desculpa para passar com uns equipamentos.

Maria Augusta Labatut Stresser é de uma família tradicional de Curitiba. Seu pai e seu avô foram jornalistas renomados, fundaram um jornal, além de emissoras de TV e de rádio. Seu bisavô, Augusto Stresser, foi maestro e compôs “Sidéria”, a primeira ópera paranaense. Guta, apelido que carrega desde nova, é prima de terceiro grau de Dalton Trevisan (1925-2024), o lendário escritor curitibano.

Foi numa peça de Trevisan que Guta estreou profissionalmente no teatro, aos 19 anos. Fez um tremendo sucesso na época já nesta estreia, com a peça “O Vampiro e a Polaquinha”. Ela interpretava a Polaquinha, e se destacou no circuito teatral da cidade naquele início da década de 1990. Depois de três temporadas em cartaz, vendeu um aparelho de som e um Chevette e foi para o Rio de Janeiro tentar a sorte como atriz. Conseguiu.

No Rio, depois de bicos, propagandas e de muito trabalho no teatro, conquistou o papel que mudaria sua vida: a Bebel, da série “A grande família”, da TV Globo. Contracenou por 14 temporadas com nomes como Marco Nanini, Marieta Severo, Rogério Cardoso, Lúcio Mauro Filho e Pedro Cardoso. Com o último, fez um dos pares mais queridos do Brasil — Agostinho e Bebel tinham química implacável, mas a relação de Guta e Pedro azedou depois de mais de uma década de trabalho.

A briga com o colega é um dos assuntos de que Guta fala abertamente nesta entrevista, que passa pela infância em Curitiba, pelos anos dourados de “A grande família”, pela crise financeira que lhe fez perder a casa onde morava no Rio e pelo diagnóstico de esclerose múltipla, doença com a qual ela convive desde a pandemia.

Como foi a sua infância e quando se descobriu artista?

Tive uma infância muito legal. Morávamos numa chácara, um lugar lindo, eu subia nas árvores, adorava brincar na natureza. Foi minha iniciação artística, eu adorava brincar sozinha, todo aquele mundo lúdico. Quando meus pais se separaram, a realidade mudou, mas me preparou. A família declinou financeiramente. Fazia balé no Guaíra desde os 8 anos. Aos 13, entrei no grupo de teatro do colégio. Na pré-adolescência, andava com os punks da Praça da Ucrânia. “O Vampiro e a Polaquinha”, minha primeira peça profissional, era muito uma peça de autor, o Dalton tem uma coisa que pro carioca lembra o Nelson Rodrigues, uma coisa safada, de mostrar as mediocridades. Era maravilhoso. Mas cabeça de jovem é difícil. Fizemos durante três anos. Quando chegou no terceiro, eu pensei: meu Deus, vou morrer nessa cidade fazendo a Polaquinha.

Aí você foi pro Rio. Passou dificuldade no começo?

Sim. Mas tive amigas que me ajudaram, como a Rose Abdallah, baita atriz que me chamou pra dividir apartamento. Fui formando uma pequena família. Tinha muito teste pra comercial. Fiz animação de festa infantil. Trabalhei numa turnê da Marisa Monte no Canecão, ficava na porta controlando a lista de convidados. E fiz muito teatro. Cheguei a ganhar uma crítica elogiosa da (crítica de teatro do GLOBO) Bárbara Heliodora, mas depois ela acabou comigo (risos).

Como foi o teste pra fazer ‘A grande família’?

O teste era feito em casal, era uma cena do “Comédia da vida privada”, na Tycoon (na Barra da Tijuca). Era uma cena onde a amante, eu no caso, chegava no apartamento do cara e saía mexendo em tudo, estourando champanhe, fazendo uma zona (risos). Mas são essas coisas do destino. Não era pra eu fazer o teste com o Lúcio Mauro Filho. A gente já era amigo, frequentava a casa dele. No dia, a menina que ia fazer com o Lúcio atrasou, o cara que ia fazer comigo perdeu o voo de São Paulo pro Rio. O Mauro Mendonça Filho falou: “Ué, vocês sabem o texto, não querem fazer juntos?” Foi muito maneiro. Depois, partimos pro Baixo Gávea. Quando soube que passei, não acreditei, fiquei louca. Vou ser filha do Nanini e da Marieta, neta do Rogério Cardoso, irmã do Lúcio, meu Deus, nossa, eu não acreditava. E mulher do… Que Deus o tenha (risos). Brincadeira, eu admirava muito o Pedro.

Como era o clima entre o elenco?

Acho que foram os melhores anos da minha vida. Dizíamos: “a gente é feliz e sabe”. No começo, gravávamos no Teatro Fênix. A gente ficava no camarim da Sasha (filha de Xuxa, que gravava seu programa no mesmo teatro). Sempre nos demos muito bem. Quando eu vejo no ar, noto que demorou um tempo pra afinar. E o próprio visual. No começo era mais duro. Depois veio a jarra de abacaxi, os vestidos dos anos 1950. Eu adoro essa fase, não que eu não goste do início. Os textos são impressionantes. Os autores eram geniais. Continua atual. Todos os planetas estavam alinhados. O clima era bom, a gente era superamigo nos bastidores. Quando fui no aniversário da Marieta, na casa dela, na Gávea, quase morri. Era Gilberto Gil, Chico Buarque, Caetano Veloso…

O Pedro Cardoso chegou a dizer no “Sem censura”, há um tempo, que você era extraordinária. Que você era “Pelé”. O que houve entre vocês dois?

Ele também era ótimo. Tivemos uma relação muito boa e saudável durante 12 dos 14 anos. A gente tinha uma química muito boa. O Pedro é uma pessoa difícil, mas também tinha um lado alegre, piadista. Às vezes tinha umas coisinhas de ego. Mas o casal funcionou muito. Ele é muito bom ator, tem um jogo de contracena muito bom. A gente improvisava, os autores curtiam. Só que ele sempre tinha umas críticas ao texto. Era uma discordância nossa, porque eu adorava. Um dia, fomos gravar numa externa. Era um comício do Agostinho com 50 figurantes, tinha imprensa nesse dia no set, foi um dia tenso, estava garoando, eu estava com frio, e tive que repetir várias vezes uma cena em que eu torcia o pé. Uma hora, a diretora se deu por satisfeita e o Pedro sugeriu de fazer de novo, de colocar uma câmera em tal lugar. Falei pra diretora que era mole repetir pra eles, que estavam no quentinho, cobertos. Pedro disse pra eu não falar daquele jeito com a diretora. E eu respondi: “Ah, Pedro, agora vai querer dirigir também?”. Não prestou. Ele veio andando pra cima de mim, gritando, achei que ia me bater. E disse: “Você é uma escada, você não é nada, só existe por causa de mim”. E ainda disse que eu trabalhava alcoolizada, o que era muito mentira. Comecei a chorar. Foi péssimo.

Como ficou a convivência depois disso?

A gente gravou algumas cenas ainda. Eu ensaiava sem olhar pra ele. Os autores propuseram uma separação. Achei ótimo. Um ano depois, teve uma cena linda em que o Agostinho pedia desculpa pra Bebel. Caíam corações na externa. Ele chegou depois pra mim e falou: “Foi bonito, né?”. Mas não me pediu desculpas. Depois me encontrou uma vez em Santa Teresa, pediu pra gente tirar uma foto, que foi pro Instagram, nos falamos rapidamente. Mas nunca me pediu desculpas.

Você o perdoaria?

Sim. Mas o perdão às vezes é mais pra gente do que pro outro.

Como foram as oportunidades de trabalho depois de “A grande família”?

Fiquei supermarcada por um personagem, é a dor e a delícia. Foi muito bom, mas sabia que ia ser difícil descolar da Bebel. Quando acabou o programa, fiquei muito deprimida. Era uma família, de certa forma, estava junto toda semana. E de repente não recebe mais roteiro, não vai mais pro estúdio. Fiz algumas peças legais, filmes, coisas que eu adoro. Fiz “Malhação: vidas brasileiras”. Mas minha personagem não aconteceu muito.

Conseguiu juntar dinheiro?

Tive um gargalo que acabou com a minha vida financeira. Tentei comprar uma casa, não consegui segurar o financiamento depois que meu contrato na TV acabou. Também gastei tubos de dinheiro pra tentar engravidar e não consegui. Gastei tudo com isso e com a casa, que acabei perdendo. Foi trash, ameça de despejo.

Como descobriu que tinha esclerose múltipla e como convive com a doença?

Foi no “Dança dos famosos”, o último com o Faustão, durante a pandemia. Notei que tinha algo errado. Névoa cognitiva, coordenação motora. Estava esquecendo as coisas. E eu sempre fiz balé, sempre tive noção de espaço, de tudo. Depois de uma ressonância, veio o diagnóstico. No começo, achei que era o fim do mundo. Depois, vi que não. Os remédios melhoraram muito, impedem os surtos, causadores das sequelas. É uma doença autoimune e sem cura, mas os remédios freiam.

Como foi a volta pra Curitiba?

Na época em que perdi a casa, me chamaram pra fazer uma peça aqui. Eu tinha um apartamento pequeno no Rio, vendi e comprei um aqui, onde moro com o Bento, meu cachorro. Enfiei uma casa enorme num apartamento de 40 metros. A resiliência talvez seja a maior qualidade que um ser humano pode ter. Vou continuar a fazer o que sempre fiz. Teatro aqui, trabalho ali. Ressignifiquei muita coisa nessa volta. Hoje entendo melhor o que eu preciso, o que me basta.

Dia desses você teve de lidar com críticas nas redes sociais. Você anda por lá como anda na rua, com um grande “Foda-se”?

Ando mesmo, de verdade. Me ofende quando dizem “tá na pedra”, “o que aconteceu com ela?”. Mas isso diz mais sobre eles do que sobre mim. Esse mundo de hoje, cheio de haters, nunca vai ser unânime, tudo cada vez mais polarizado. A gente não pode entrar nessa armadilha. Curitiba me deu um senso de pertencimento diferente. Aquela casa no Rio, eu não ocupava inteira. Esse apartamento eu ocupo inteiro. Demais até (risos). Eu tinha carro, hoje não tenho mais por causa da doença. Pegava o carro pra ir na padaria, não saía a pé. Aqui, eu desço a pé, já fiquei amiga do dono da padaria. A gente falou muito sobre se reinventar na pandemia. Mas existe o se reinventar pequeno, nas relações, na relação consigo mesma. Estou com 53 anos. É outra vida possível. Ontem um amigão meu disse: “Sabe, Guta, eu cada vez mais admiro as pessoas que gostam do que têm em vez das que estão sempre querendo mais”. É exatamente isso.

Nossa o Pedro Cardoso foi um escroto com ela

Gente?

chocadrah que ela tem esclerose múltipla, doença fudida maldita

Gente, eu fico de cara com esse povo anos na Globe e não consegue juntar 10 reais pra viver depois

Na época tinha essa fofoca que ela chegava bêbada mesmo pra gravar. Que os dois eram difíceis.

Infelizmente sim :frowning:

sempre perguntam as mesmas coisas pra ela
canseira

Nem sabia que ela tinha essa doença, ela parece ter uma vida mega simples em Curitiba

Dizem que não sobrou muito do que ganhou por causa dos tratamentos para engravidar e da doença depois. Até o apartamento tava difícil de sustentar. Faz sentido ter saído do Rio.

E diferente do beiçola, ela era uma das principais e ganhava muito bem.

Eu acredito 100% nela quando diz que ele falou essas coisas pra ela. Ele é extremamente arrogante. Um ser horrendo

2 curtidas

A Marieta foi a única que conseguiu se desvincular da imagem da dona Nenê , né? Os outros não conseguiram personagens com tanto êxito igual ela pos AGF

Marco Nanini também. Ambos já tinham carreiras bem consolidadas antes né

1 curtida

tava assistindo a grande família e a guta novinha era a cara da brittany murphy

Aí, não acho não

Marco nanini já era consolidado então Lineu foi mais um na carreira

O Pedro é bem ativo no cinema

Acho que só ela ficou com esse estigma infelizmente

Todos esses atores da grande familia estão falidos hoje em dia!