O Paradoxo da Mobilidade: Filho da faxineira ganhou diploma, não achou emprego e está frustrado com Lula


O presidente Lula participa de Feira Industrial de Hannover, na Alemanha — Foto: Ronny Hartmann/AFP

Toda campanha do PT tem uma propaganda mostrando um jovem que se tornou o primeiro de sua família a ter um diploma universitário. O slogan “o filho da faxineira virou doutor” exemplifica os impressionantes resultados dos programas educacionais de expansão do ensino técnico, ProUni, política de cotas e Fies, criados nos governos Lula 1 e 2. Uma pesquisa exclusiva Genial/Quaest indica, no entanto, que o governo Lula 3 está pagando pela desilusão dos doutores filhos de faxineira.

De acordo com a pesquisa, eleitores que ascenderam estão mais insatisfeitos com o governo Lula e com os rumos do país do que aqueles que não tiveram avanço.

— É o paradoxo da mobilidade. Esses eleitores tiveram uma forte ascensão de status, porém não vivenciaram ascensão de classe. Eles se beneficiaram de importantes iniciativas governamentais, mas, ao contrário do que imaginavam, não acharam um lugar no mercado de trabalho. Eles investiram tempo e energia para ter um diploma, mas isso não lhes garantiu um salário melhor, apenas frustração. É verdade que o filho da faxineira virou doutor, mas ele não conseguiu emprego na sua área e sobrevive como motorista de aplicativo — afirma Felipe Nunes, diretor da Quaest.

A pesquisa usou uma premissa conhecida da sociologia, a de que a diferença de educação entre a mãe e seu filho e filha é um indicador de mobilidade social. As escolaridades de mães e filhos foram convertidas para uma escala numérica de 1 (analfabeto) a 10 (ensino superior), na qual o avanço entre as duas gerações seria considerado alto se fosse igual ou maior que 5, médio de 3 a 4, nulo de zero a 2 e negativo se o filho ou filha tivesse estudado menos que a mãe.

A pesquisa mostrou que 22% dos eleitores tiveram mobilidade alta; 24% média, 47% nula e 7% negativa. Isso significa que 46% dos eleitores superaram a escolaridade de suas mães — dado revelador tanto da desigualdade na educação como do esforço das novas gerações em estudar.

Compare as opiniões dos que tiveram mobilidade alta, os mais beneficiados pelas políticas públicas dos governos anteriores, com aqueles que não tiveram ascensão:

Situação econômica é pior que esperava
Mobilidade alta: 47%
Sem mobilidade: 33%

Situação econômica é melhor que esperava
Mobilidade alta: 51%
Sem mobilidade: 66%

Políticas públicas do governo não lhe ajudam em nada
Mobilidade alta: 34%
Sem mobilidade: 33%

Políticas públicas do governo ajudam tanto a você quanto a maioria da população
Mobilidade alta: 29%
Sem mobilidade: 33%

Avaliação negativa do governo Lula
Mobilidade alta: 49%
Sem mobilidade: 41%

Avaliação positiva do governo Lula
Mobilidade alta: 23%
Sem mobilidade: 34%

O Brasil está na direção certa
Mobilidade alta: 29%
Sem mobilidade: 38%

O Brasil está na direção errada
Mobilidade alta: 65%
Sem mobilidade: 55%

Os resultados desta pesquisa são muito ruins para a campanha de reeleição de Lula, porque indicam que a atual crise de popularidade não é um problema de comunicação, um mau humor momentâneo com os preços nos supermercados ou um problema que pode ser resolvido com mais gasto público. A decepção desta geração é estrutural.

O PT viveu um momento comparável em 2013, quando um protesto da esquerda radical contra o aumento do preço das passagens de ônibus se transformou em gigantescas manifestações populares. À época, o marqueteiro João Santana concluiu que o brasileiro médio estava satisfeito com os bens de consumo que havia comprado nos governos do PT, mas irritado com os serviços básicos de saúde, transporte e educação. Havia um evidente sentimento de fadiga de material depois de três governos petistas, e a solução de Santana foi fazer a própria campanha da reeleição de Dilma Rousseff se dizer a favor das mudanças. O slogan da campanha foi “mais mudanças, mais futuro”. Deu certo inicialmente, Dilma conseguiu se reeleger, mas a frustração popular foi canalizada para a campanha do impeachment.

Lula tem hoje um desafio similar, mas, depois de 18 anos de governos do PT, não pode se dizer o candidato antissistema. A sua campanha terá de entender a desilusão do primeiro doutor da família da faxineira.

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No fim esse texto não diz grandes coisas, porque problemas estruturais de desemprego e empregos desvalorizados, endividamento e sensação de falta de dinheiro o brasileiro tem desde que se conhece por gente.

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parabéns haddad por ter bancando os quiosques de diplomas à preço de banana enquanto ministro da educação

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O globo

Essa “mobilidade” do ensino criou tantas cabeças de hidra pro governo. O país não tem mercado de trabalho pra absorver tanta mão de obra, e essas uniesquinas, que são acessadas pela população mais pobre através do FIES, são maquinas de construir mão de obra sem consciência de classe e com discurso de direita.

O que tá acontecendo é que tá se formando um exército enorme de jovens endividados e frustrados, que depositam seu ódio pelo desemprego e falta de dinheiro no PT e na esquerda, e que daqui uns aninhos vai deixar o país ainda mais a direita do que já tá.

Como a maioria das políticas públicas do PT, não houve um planejamento macro. Apenas criaram programas no ensino superior sem pensar o que fazer com os jovens que passariam por ele, e a essa altura não tem mais jeito.

Nos anos 2000 tinha uma fórmula que era vendida de vida bem sucedida, terminar o ensino médio, fazer faculdade (não importa qual) e depois conseguiria um bom emprego… Esse fórmula tinha um limite e depois de uma década saturou várias profissões… E essa quebra de expectativa que gera o mal estar..

A real é que o governo sempre alimentou indiretamente aquilo que vai o destruir. Pois de pouco adianta ter tantos diplomados qualificados em um país sem a indústria com tamanho para absorver esse tanto de gente nova.

Aí o que acontece com essa gente que não é absorvida na área que se formam? Ficam ressentidos pois tinham a expectativa de rápida ascensão de classe que muitas vezes não se materializa. E criar a expectativa é na maioria das vezes uma merda pois abre porta para decepção e raiva.

Grande parte da galera que é mais Anti-Lula hoje em dia se beneficiou de alguma forma do governo mas guarda forte ressentimento de não ter resultado na mudança de vida prometida. E culpam e batem em quem criou o sonho para começo de conversa.

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nao entendo o pq dao tanta enfase em filho de faxineira como se não fossem capazes de serem graduados

Infelizmente o Brasil só é bom pra quem passar em concurso. E não tem vaga pra todo mundo. E isso não é culpa do governo atual, isso sempre existiu e sempre existirá.

Queremos renda universal básica