O regime favorito de Trump está prestes a cair e isso é muito importante para o Ocidente
Para os republicanos do movimento Maga e outros nacionalistas populistas, Viktor Orbán é um modelo a ser seguido
A Hungria tem menos habitantes do que a Bélgica, e seu PIB mal chega a 1% do da União Europeia. No entanto, tem peso. Não porque os húngaros inteligentes tenham inventado o cubo mágico e a caneta esferográfica, mas porque um húngaro sem escrúpulos, Viktor Orbán, serve de exemplo de como um líder eleito democraticamente pode minar a democracia e o Estado de Direito.
Para os republicanos do movimento Maga e outros nacionalistas populistas, Orbán é um modelo a ser seguido: um flagelo para os politicamente corretos, um defensor das fronteiras, da tradição e do cristianismo. Donald Trump elogia sua força; Steve Bannon o chama de “um dos grandes líderes morais deste mundo”. Mas seu governo é impopular na Hungria; muitos o veem como repressivo, corrupto e pronto para ser derrubado. No próximo domingo, os eleitores terão a chance de fazer exatamente isso. Eles devem aproveitá-la.
Desde que chegou ao poder em 2010, Orbán tem eliminado sistematicamente os freios e contrapesos, neutralizando o Judiciário, enchendo a burocracia de lacaios e cooptando gradualmente quase todas as instituições independentes. Cada passo era geralmente legal, e muitos tinham precedentes em outras democracias. Mas, em conjunto, consolidaram vastos poderes em um pequeno círculo governante e abriram as portas para uma corrupção colossal. A Hungria é agora o país menos livre e mais corrupto da UE.
É também o mais favorável a Putin. Energizado pelo gás e pelo petróleo russos, Orbán frustra os esforços da UE para enviar dinheiro à Ucrânia e tenta suavizar as sanções contra a Rússia. Os líderes europeus agora presumem que tudo o que dizem na presença de um funcionário húngaro será repassado ao Kremlin. Vladimir Putin está grato: as ferramentas de desinformação da Rússia têm sido vigorosamente empregadas para difamar a oposição húngara.
A eleição não será justa. A maioria da mídia é controlada pelo Estado ou pelos comparsas de Orbán. Os eleitores são constantemente (e falsamente) alertados de que uma vitória da oposição significará que os húngaros serão enviados para morrer na Ucrânia. O sistema eleitoral foi manipulado em benefício do partido no poder, o Fidesz.
A frente ampla húngara
No entanto, as pesquisas mostram a oposição com uma vantagem decisiva. Algumas até sugerem que ela conquistará uma ampla maioria no Parlamento. As pesquisas podem estar erradas, mas esta é a melhor chance da Hungria em 16 anos de se livrar de Orbán. Se a oposição vencer, os liberais de todo o mundo deverão estudar o que ela fez certo.
Uma lição diz respeito às táticas. A oposição se uniu em torno de seu candidato mais elegível, Peter Magyar. Bonito e carismático, ele faz campanha habilmente nas redes sociais e incansavelmente em comícios. Como desertor do partido no poder, ele pode falar abertamente sobre a decadência moral do partido. Ele também atrai eleitores indecisos, principalmente em cidades pequenas, que podem ver outras figuras da oposição como excessivamente elitistas. Ele não é perfeito, mas seu movimento emergente, o Tisza, une a centro-esquerda e a centro-direita.
Em segundo lugar, a oposição não se limita a resmungar sobre ideias abstratas, como a democracia. Em vez disso, ela enfatiza como o Fidesz esvaziou as carteiras dos húngaros. As taxas de juros estão altas; a economia cresceu apenas 0,4% no ano passado (a vizinha Polônia conseguiu 3,6%). Magyar também critica duramente a corrupção do regime. Os eleitores podem ver como os amigos de Orban ficaram surpreendentemente ricos, graças a contratos públicos fraudados e favores regulatórios.
A apropriação indevida de enormes subsídios da UE por pessoas com acesso a informações privilegiadas tornou-se tão flagrante que Bruxelas, tardiamente, os congelou. A Hungria é um exemplo clássico de como o poder irrestrito — o objetivo dos populistas em todo o mundo — é uma receita para a pilhagem; mas também de como tal pilhagem acaba por afastar os eleitores.
Numa nota relacionada, o apoio de Trump, na pessoa de J.D. Vance, que deve visitar a Hungria pouco antes da eleição, não parece estar ajudando Orbán. O populista de direita mais famoso do mundo está cada vez mais associado à guerra, à gasolina cara e à corrupção.
Na Austrália e no Canadá, sua interferência na época das eleições acabou ajudando, sem querer, os candidatos de quem ele não gosta. Resta saber se este ano verá a maré populista começar a baixar. Mas grupos como o partido de Nigel Farage no Reino Unido, o Reform UK, e a Alternativa para a Alemanha consideram constrangedor estar afiliados ao Maga. Os centristas deveriam tirar proveito disso.
Futuro na balança
Enquanto isso, o futuro da Hungria está na balança. Se a oposição conquistar uma grande maioria, será mais difícil para Orban negar ou subverter o resultado. Mesmo que seja destituído, ele ainda poderá causar problemas. Ele criou instituições, como fundações que administram universidades e veículos de mídia, que permanecerão sob o controle de seus amigos.
Qualquer novo governo terá dificuldade em desfazer o domínio tentacular do orbanismo sobre a Hungria. (A Polônia, onde um governo moderado enfrenta um problema semelhante, oferece lições.) O primeiro passo para a Hungria, no entanto, é o mais crucial: derrotar Viktor.