Imagem: Torres Gêmeas vistas da baia de Nova York, anos 1980.
Tópico longo abaixo!
Vinte e cinco anos atrás, as torres gêmeas do World Trade Center foram destruídas num atentado terrorista. O foco, na maioria das vezes, fica nos ataques e em seus desdobramentos: A silhueta dos prédios é super reconhecida, mas não necessariamente o que eles eram.
Como já existem muitas retrospectivas sobre os ataques, quis fazer um tópico diferente: O que era o complexo original do World Trade Center.
Imagem: Mapa e foto dos edifícios do World Trade Center.
O World Trade Center era um complexo de 7 edifícios nas proximidades de Wall Street e do City Hall, no centro histórico de Nova York. A construção das edificações se iniciou em 1968 e foi concluída em 1987, quando a torre 7 foi finalizada.
O complexo era composto por sete prédios:
1 World Trade Center | Torre Norte: Edifício comercial de 110 andares
2 World Trade Center | Torre Sul: Edifício comercial de 110 andares
3 World Trade Center | Hotel Marriot: Hotel de luxo de 22 andares
4 World Trade Center | Southeast Plaza Building: Edifício comercial de 9 andares
5 World Trade Center | Northeast Plaza Building: Edifício comercial de 9 andares
6 World Trade Center | US Customs House: Escritórios da Anfândega Nova Iorquina de 8 andares
7 World Trade Center | Salomon Brothers Building: Edifício comercial de 47 andares
O complexo abrigava mais de 1.200.000m² de área construída, acesso a linhas de metrô, ao sistema PATH (ligando Nova York a New Jersey, por baixo do rio Hudson) e abrigava o maior shopping da cidade: The Mall at the World Trade Center. Era ocupado por diversas empresas financeiras nacionais e multinacionais, abrigava órgãos de governo e cofres de empresas, além do escritório de Contra Terrorismo da cidade.
Video: Importância das torres na imagem de Nova York, History Channel.
Planejamento e criação:
O World Trade Center, diferentemente da maior parte dos arranha céus de Nova York, não foi construído por uma empresa privada desejando criar espaço comercial. Pelo contrário: foi uma iniciativa envolvendo órgãos semi públicos para revitalizar Lower Manhattan, que estava em decadência econômica antes de sua criação.
Quem já visitou ou é familiarizado com Nova York, tem em mente a imagem das ruas da cidade em ângulos retos, com quadras retangulares. Essa percepção é verdadeira, mas apenas para uma parte de Manhattan: o centro histórico da cidade, no sul da ilha, tinha um traçado irregular. As ruas são mais estreitas e os quarteirões não tem formatos fixos. O traçado do restante da cidade foi definido após o desenvolvimento do centro histórico, e toda a parte sul da ilha é mercada por traçados orgânicos.
Imagem: Diferença de traçado urbano em Lower e Midtown Manhattan.
Lower Manhattan abriga Wall Street (onde fica a Bolsa de Valores dos Estados Unidos) e diversas instituições financeiras. No início do século XX, os primeiros arranha céus surgiram na região: Singer Building (1908, 41 andares), Woolworth Building (1913, 51 andares) e 40 Wall Street (1929, 70 andares). Entretanto, a região foi perdendo destaque após a segunda guerra mundial, com a região de Midtown atraindo mais empreendimentos devido ao traçado mais linear das ruas, avenidas mais largas, melhor acesso de metrô e trem.
Midtown Manhattan é onde se encontram: Grand Central Station, Madison Square Garden (e sua estação subterrânea), Times Square, Sede da ONU, Chrysler Building, Empire State Building e o Central Park.
Para atrair desenvolvimento urbano ao centro histórico, David Rockefeller (que era CEO do Chase Manhattan Bank) foi o líder de uma iniciativa para revitalização da região: a sede do banco, um dos maiores do país, seria construída na parte sul da ilha. Com 60 andares e finalizada em 1959, a torre foi o primeiro arranha céu em estilo internacional em Lower Manhattan, contrastando com os edifícios Art Deco existentes. A intenção era atrair mais empresas para a área, porém era necessário um plano mais ambicioso do que apenas uma única edificação.
Imagem: One Chase Manhattan Plaza, atual 28 Liberty Street (mesma rua do World Trade Center).
Graças a seus contatos políticos (seu irmão Nelson Rockefeller era governador do Estado de Nova York), o plano de desenvolver um World Trade Center para revitalizar a região emergiu. A ideia era antiga: já existia nos anos 40, mas nunca havia saído do papel. O plano era desenvolver um centro mundial dedicado ao comércio, se aproveitando da proximidade com a New York Stock Exchange, para maximizar o caráter financeiro da região.
Para desenvolver um projeto de grande porte (e utilizando como argumento o interesse público na região), decidiram ter como parceira a Autoridade Portuária de Nova York e Nova Jersey. A entidade, que opera com verbas públicas e privadas, é a responsável por obras de grande porte nos dois Estados: aeroportos, terminais de ônibus, túneis e pontes de enormes proporções.
Entretanto, surgiu um dilema: A Autoridade Portuária é um órgão que opera nos dois estados, e o projeto de um possível World Trade Center beneficiaria apenas Nova York.
Imagem: Mapa com a localização inicial e final do World Trade Center, e primeiros estudos arquitetônicos preliminares.
O complexo original ficaria no East River, de frente para o Brooklyn. Essa posição é do lado oposto de Manhattan que tem vista para Nova Jersey, e o governo do Estado afirmou que só aprovaria a construção se a Autoridade Portuária renovasse o sistema PATH: linhas subterrâneas de trem de Nova Jersey que passavam por debaixo do rio Hudson e tinha o terminal na margem oeste de Lower Manhattan.
O governo de Nova York não aprovou e ambas as partes entraram em brigas. Mas a diretoria da Autoridade Portuária teve uma ideia: mover o projeto para a margem oeste e construir um novo terminal, embaixo do World Trade Center.
Imagem: McGregor Memorial Conference Center e Oberlin Conservatory of Music, de Minoru Yamasaki.
Minoru Yamasaki, de origem japonesa, foi selecionado como o arquiteto responsável pelo projeto. Ele nunca havia feito nenhum projeto na escala do World Trade Center: mais de 1 milhão de metros quadrados de área construída. A Autoridade Portuária o selecionou por conta de seu minimalismo e elegância projetual.
Doze quarteirões foram demolidos para a construção do projeto: a região era onde se localizava a Radio Row, bairro de média densidade onde existiam diversas lojas dedicadas a serviços eletrônicos, vista como decadente pela prefeitura de Nova York. Minoru experimentou diversas combinações de edificações: um modelo com dez torres, outro com dois edifícios em forma de lâmina e uma torre central gigante, mas seu preferido foram duas torres, desalinhadas e com a mesma altura.
Video: Desenvolvimento projetual do World Trade Center, New York: A Documentary Film.
O plano arquitetônico era composto por: Duas torres gêmeas de 80 andares cada, três edifícios menores (para equilibrar a verticalidade das edificações maiores) e, ao centro, uma praça cívica inspirada na Praça São Marco, de Veneza. A Autoridade Portuária, impressionada com o projeto, decidiu expandir o projeto para superar o Empire State Building, edifício mais alto do planeta desde 1931. O projeto passou a incluir duas torres de 110 andares cada.
O projeto foi alvo de muitas críticas, devido a destruição da Radio Row, a escala das torres e até mesmo um backlash por medo de, por conta da altura das edificações, bloquearem o sinal de televisão. Por conta disso, a Torre Norte (ou 1 World Trade Center) passaria a contar com uma antena de telecomunicações que a diferenciaria de sua gêmea.
A Construção ocorreu entre 1968 e foi concluída em 1981, quando o 3 World Trade Center foi finalizado. Em 1972, A Torre Norte (com 417 metros de altura) se tornou o edifício mais alto do planeta.
Imagem: restaurante Windows on the World e skyline de Manhattan com as Torres Gêmeas.
1 World Trade Center | Torre Norte:
A Torre Norte contava com 110 andares e era casa de diversas empresas de finanças, seguros e órgãos públicos, abrigando os escritórios da Autoridade Portuária. Era o edifício mais alto de Nova York e, assim como sua irmã, contava com um lobby com pé direito equivalente a seis andares. Ambos os edifícios tinham dois níveis em seu saguão: um no nível da rua e outro no nível da praça elevada entre os prédios.
Imagem: Saguão e fachada externa do 1 WTC.
Era possível entrar tanto pelo nível do shopping, pela rua e pela praça elevada. A base das torres era marcada por tridentes de alumínio, que se dividiam em elementos estruturais na fachada e criavam janelas pequenas: Yamasaki tinha medo de altura e, pensando nos trabalhadores que pudessem sentir o mesmo, preferiu fazer janelas menores.
O topo do 1 World Trade Center tinha uma atração turística: localizado no 107° andar, o Windows on The World foi restaurante e bar de alto padrão, onde diversos negócios e eventos ocorriam. Foi o restaurante mais lucrativo do mundo em 2000, seu último ano de funcionamento.
Imagem: Vista da Torre Sul e deck panorâmico de observação.
2 World Trade Center | Torre Sul:
A Torre Sul do World Trade Center tinha os mesmos 110 andares de sua irmã, mas alguns detalhes próprios: 415 metros de altura (2 a menos que a Torre Norte) e abrigava um observatório interno e externo. No 107° andar, o público podia subir e admirar Nova York assim como no observatório concluído na década passada. Entretanto, a Torre sul tinha algo que nunca foi substituído: um deck panorâmico aberto.
Video: Visita ao observatório do World Trade Center em 1999.
O deck foi uma atração extremamente popular em Nova York, sendo utilizada em filmes e clipes musicais. Devido a arquitetura das torres (largas no topo e com cobertura plana) foi possível instalar um deck com visão de 360° de Nova York. Até hoje não foi substituído: o novo observatório do World Trade Center é fechado, o observatório do Empire State também, e o deck do Hudson Yards não tem visão panorâmica completa.
Imagem: Marriot World Trade Center entre as torres Norte e Sul.
3 World Trade Center | Hotel Marriot:
Originalmente com o nome de Vista Hotel, o Marriot World Trade Center foi um hotel de 22 andares inaugurado em 1981, sendo o primeiro hotel construído em Lower Manhattan desde 1836. Com a classificação Four-Diamond, tinha como principal função a hospedagem de empresários que fariam reuniões nas empresas do World Trade Center e edifícios adjacentes. Sua localização entre as torres gêmeas era super privilegiada.
Imagem: Vista da rua do 4 World Trade Center, e a partir da praça interna do complexo.
4 World Trade Center | Southeast Plaza Building:
Um dos edifícios menores, de 9 pavimentos e fachadas em tons escuros que contornavam a praça interna do World Trade Center. Os edifícios foram propositalmente concebidos em volume menor para equilibrar a verticalidade das torres gêmeas, além de fazer uma referência aos prédios nas bordas da Praça São Marco, em Veneza.
O Southeast Plaza Building tinha dois níveis de shopping, sendo uma das entradas para o The Mall at the World Trade Center. Abrigava escritórios de diversas empresas financeiras (tendo um dos maiores trading floors de Nova York) e seu subsolo abrigava cofres de ouro de empresas, que só foram encontrados após meses de limpeza da destruição dos atentados.
Imagem: Northeast Plaza Building atrás da escultura The Sphere e nos níveis da rua.
5 World Trade Center | Northeast Plaza Building:
Assim como seu irmão ao lado, o 5 World Trade Center tinha níveis de shopping (contendo uma loja de 3 andares da Borders Bookstore) e também abrigava empresas americanas e multinacionais. Abaixo do edifício, ficavam as estações de metrô de Nova York e a entrada do terminal da PATH, sendo um dos pontos mais movimentados do complexo.
Imagem: Vista aérea e fachada do edifício da Alfândega de Nova York.
6 World Trade Center | US Customs House:
O 6 World Trade Center era o edifício mais fechado e com o acesso mais restrito de todo o complexo original. Abrigava os escritórios da US Customs House (a Alfândega americana), além dos departamentos United States Department of Commerce, Bureau of Alcohol, Tobacco, Firearms and Explosives, entre outros. Ele conectava o World Trade Center ao complexo do World Financial Center (atual Brookfield Place), através de uma passarela por cima da West Street.
Imagem: Vista do Salomon Brothers Building e de suas pontes para pedestre.
7 World Trade Center | Salomon Brothers Building:
Sendo o edifício mais recente do complexo do World Trade Center e o terceiro mais alto (após as Torres Gêmeas) o 7 World Trade Center foi concluído no final dos anos 1980. Originalmente, o quarteirão onde ficava o edifício era dedicado a uma subestação de energia para o complexo, que foi adaptada para suportar a construção de 47 andares menos de vinte anos depois.
Era a única edificação do World Trade Center fora do quarteirão original onde os demais seis prédios se localizavam, e era conectado a eles por duas passarelas para pedestres, sendo uma dela mais larga e com espaço para obras de arte e jardins. No edifício, funcionava o escritório de Contra Terrorismo de Nova York, que acabou não sendo utilizado durante os atentados porque o prédio precisou ser evacuado.
Imagem: Skyline clássico de Nova York dos anos 1990 - 2000.
Existem muitos detalhes adicionais, e mesmo resumindo o tópico ficou muito grande. Achei que seria interessante falar sobre a história desses dois ícones americanos, que foram marcados pela tragédia, mas tinham seu mérito e charme próprios.
Obrigado pela leitura!
Imagens: Wikipedia, Skyscraper City, Pinterest.