Lucélia (Daphne Bozaski) pode até não ser a grande vilã de Três Graças, mas já desponta como uma das personagens mais detestadas da novela das nove da Globo. E isso, longe de ser um problema, é um excelente sinal para Aguinaldo Silva. A rejeição à prima de Maggye (Mel Muzzillo) mostra que o conflito da trama se sustenta mesmo fora do eixo central de Arminda (Grazi Massafera) e Ferette (Murilo Benício) --alcançando núcleos em que os dois não chegam ou simplesmente não fazem questão de interferir.
Uma simples busca nas redes sociais traz uma quantidade sem fim de impropérios direcionados à jovem. “Quero pena de morte para Lucélia de Três Graças”, escreveu um perfil identificado como Whee! no X. “Inexplicável a raiva instantânea que eu sinto quando a Lucélia aparece, me irrita muito o tom de voz condescendente, a postura como se fosse superior, os absurdos que ela fala, o olhar de quem está sempre julgando”, acrescentou Bia.
Mas por que Lucélia consegue tirar mais o público do eixo do que a própria Arminda ou mesmo Ferette? Ela representa talvez um “mal menor”, mas que está presente no cotidiano de qualquer pessoa. Um telespectador talvez nunca tenha comprado um remédio falso, mas já teve que lidar com um parente cheio de despeito ou inveja.
Mais do que isso, a sua função é deliberadamente abjeta, atacando até quem já foi derrotado, humilhado ou conseguiu se libertar da influência dos grandes vilões da trama. Lorena (Alanis Guillen) é a prova disso. Nem mesmo depois de ser expulsa de casa pelo próprio pai, vítima de um episódio brutal de homofobia, a jovem encontrou paz --já que passou a ser alvo da crueldade gratuita dela.
Se o público chega a rir das maldades de Arminda, enxergando ali uma projeção da própria sombra, com Lucélia a lógica é outra. Ela não representa o lado sombrio que todos reconhecem em si, mas aquele que ninguém admite possuir --o tipo de crueldade que se esconde sob uma aparência aceitável e que não se confessa em voz alta.
Daphne merece todos os aplausos pelo trabalho. Até porque vinha da carismática Lupita, de Família É Tudo (2024), que foi praticamente carregada no colo pelo público. A virada é radical: agora, o sentimento predominante do telespectador é exatamente o oposto --a vontade é de esganá-la a cada nova cena.
Três Graças é uma novela criada por Aguinaldo Silva em parceria com Virgílio Silva e Zé Dassilva. A história é ambientada em São Paulo e ficará no ar até maio de 2026.