Regina Duarte conta bastidores do fenômeno de audiência ‘Selva de Pedra’, que chega ao Globoplay 54 anos após estreia

Mais de 50 anos depois do “sha-la-la” de “Rock and Roll Lullaby“, sucesso de B.J. Thomas (1942-2021) que estourou em 1972, é a vez de outro grande símbolo daquele ano voltar à tela: no próximo dia 29 de junho, a versão original de “Selva de Pedra” (1972) chega ao catálogo do Globoplay. A novela é uma das mais simbólicas da história da TV brasileira — não por acaso, foi responsável por um feito histórico: deu 100% de audiência ainda em 1972. Regina Duarte estrela a trama, que volta ao ar no aplicativo 54 anos depois.
“Vejo com curiosidade essa reprise. Acho importante a reexibição para avaliar a qualidade do que fazíamos. Uma qualidade que acredito que a gente deva continuar almejando hoje, porque isso é algo atemporal. Claro que a televisão mudou, a forma de produzir mudou, o ritmo das narrativas mudou, mas a necessidade de verdade emocional para uma história ser bem contada continua sendo a mesma. E essa novela mostrava isso”.
“Selva de Pedra” foi a 14ª novela de Regina Duarte e, segundo a atriz declarou à revista Fatos e Fotos, em janeiro de 1973, foi “a melhor de todas”. Inclusive, em 1986, a trama ganhou um remake. “Acho bonito quando uma obra atravessa tantas décadas e ainda desperta interesse. Isso mostra que ela conseguiu tocar algo essencial no ser humano. E, para mim, como atriz, também é uma oportunidade de reencontrar uma Regina muito jovem, descobrindo a profissão e sem imaginar a dimensão que aquele trabalho teria na minha vida”.
O público gostaria que Selva de Pedra fosse eterna. Que seus personagens não fossem substituídos por outros” — Tarlis Batista, em Fatos e Fotos (janeiro de 1973)

Regina Duarte e Francisco Cuoco em “Selva de Pedra” (Foto: Divulgação/Globo)

Hildegard Angel e Regina Duarte em cena de “Selva de Pedra” (1972) (Foto: Reprodução/TV Globo)
A novela ‘Selva de Pedra’ tratava da ascensão social e da ambição numa cidade grande. Regina aponta o que havia de mais moderno na trama para aquele Brasil de 1972.
“Havia, justamente a coragem de olhar para o Brasil que estava se transformando. A novela falava de ambição, da vontade de vencer na vida, mas também do preço que muitas pessoas estavam dispostas a pagar por isso. Mas antes de tudo, havia o prazer das pessoas em acompanhar uma história de amor. Isso é a primeira coisa que uma novela precisa ter: uma bela história de amor. E os personagens eram mais complexos. Não existia aquela divisão tão simples entre mocinhos e vilões, havia muita humanidade exposta. As pessoas tinham contradições, desejos, fragilidades e escolhas difíceis. Isso trouxe uma verdade muito grande para a narrativa”.
Acho que a modernidade de ‘Selva de Pedra’ estava justamente nessa capacidade de retratar os comportamentos humanos. Por isso a novela atravessou tantas décadas. O cenário muda, o tempo muda, mas os conflitos ligados ao poder, ao amor, ao dinheiro e à busca por reconhecimento, continuam fazendo parte da vida de todos nós – Regina Duarte
Me identifiquei tanto com os problemas da personagem Simone que nem dormia mais. Quando o drama aumentou, meu sistema nervoso não aguentou” — Regina Duarte, em “Fatos e Fotos”, outubro de 1972
Segundo a autora da trama, Janete Clair(1925-1983), em entrevista à Fatos e Fotos, em janeiro de 1973, Simone era “a mais apaixonante das personagens da novela. Ela é parecida com um monte de gente boa que conheço e considero o tipo ideal de mulher. Sofreu e quase morreu por amor, transformando-se numa Julieta moderna. A princípio lutou contra si mesma, entre a arte e a paixão, acabou deixando-se vencer por Cristiano”.

Francisco Cuoco e Regina Duarte foram os protagonistas (Foto: Reprodução)
Para Regina, numa entrevista à Fatos e Fotos:
“Simone é um personagem muito rico. É a síntese de várias mulheres. Por isso não temos nada a ver. Nos identificamos em algumas situações ou pequenas características de personalidade, mas não na totalidade (…). Sinto que o público vive junto com a Simone”.
Não foi só Janete Clair quem elogiou o trabalho de Regina: a crítica especializada também a reconheceu, concedendo-lhe o Troféu Imprensa daquele ano. Dali pra frente, utros trabalhos com Regina e Janete aconteceram, como “Sétimo Sentido” (1982). “O texto Janete Clair era brilhante. Ela se tornou uma grande amiga”. Olhando para si própria, hoje com quase 80, àquela menina de 1972, Regina daria apenas um conselho a ela própria: “Segue sempre a sua intuição. É pra frente que se anda. E você vai viver muito mais do que imaginou através das suas personagens”.